Expansão de serviços acelera renda de autônomo

Rendimento cresce mais para o trabalhador que atua por conta própria do que o do setor privado 

Luiz Guilherme Gerbelli, de O Estado de S. Paulo,

19 de agosto de 2012 | 20h29

O rendimento médio real dos brasileiros que atuam por conta própria tem crescido em um ritmo mais rápido do que o dos trabalhadores com carteira assinada da iniciativa privada em boa parte do País. Em junho, na comparação com igual mês de 2011, o salário do autônomo cresceu de forma mais acelerada em pelo menos quatro das seis regiões pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em São Paulo, por exemplo, o rendimento dos trabalhadores por conta própria em junho foi de R$ 1.723,90, uma alta anual de 15,6%. Nesse período, os funcionários do setor privado tiveram ganho de 3,5% no salário, para R$ 1.755,50.

O rendimento dos trabalhadores por conta própria já supera o valor recebido pelos empregados da iniciativa privada nas regiões de Porto Alegre e Belo Horizonte. Isso ocorre porque nesses locais o desemprego está baixo - em junho, a taxa de desocupação foi de 4,0% e 4,5%, respectivamente.

Há uma relação entre o baixo desemprego e o aumento do rendimento dos autônomos. Quando boa parte da população está empregada no setor privado, há menos trabalhadores que atuam por conta própria. Nesse cenário, a concorrência diminui, o que permite o aumento do valor cobrado pelo serviço.

"O rendimento dos autônomos é pró-cíclico. Quando não tem emprego, aumenta a quantidade de pessoas trabalhando por conta própria e o rendimento delas cai", diz Anselmo Luis do Santos, professor da Unicamp e diretor adjunto do centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit).

Em junho, o maior crescimento na renda do trabalhador por conta própria foi em Recife, alta de 29,3% ante o mesmo mês do ano passado. Na sequência, aparecem São Paulo e Salvador (8,8%). "Mesmo em regiões distantes, esse fenômeno começa a se observar. Essa mudança no perfil de consumo da sociedade está relacionada com a melhoria de renda do País", afirma Otto Nogami, professor de economia do Insper e especialista em mercado de trabalho. No Brasil, é em Porto Alegre que os autônomos ganham mais (R$ 1.595,40).

Busca por serviço

O aumento da renda da população brasileira impulsionou o consumo por serviço nos últimos anos, dessa forma favorecendo o crescimento do rendimento dos trabalhadores que atuam por conta própria.

Um reflexo desse aumento pela procura de serviços está nos indicadores de inflação. Em julho, a inflação dos serviços pessoais acumulada em 12 meses e apurada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 11,01% - o índice geral está em 5,20%. Entre os destaques do aumento nos serviços pessoais, estão depilação (15,44%), empregado doméstico (13,33%), e manicure (11,16%). "À medida que há um crescimento da renda, o brasileiro está realizando mais gastos voltados para o seu bem-estar", diz Nogami, do Insper. "É um comportamento típico daquilo que a gente chama de lei da oferta e da demanda", afirma.

Nacional

O último dado divulgado pelo IBGE que leva em consideração a média das seis regiões metropolitanas é referente ao mês de maio - a greve dos servidores do instituto no Rio impediu a divulgação dos dados de junho da região e da média País.

Em maio, a diferença pró-trabalhadores registrados da iniciativa privada era de apenas R$ 27,60, a segunda menor desde 2002. No mesmo mês do ano passado, os empregados no setor privado recebiam R$ 147,60 a mais.

A maior diferença entre as duas classes de trabalhadores foi em agosto de 2006. Na ocasião, a renda dos empregados do setor privado era de R$ 1.052,60, enquanto os trabalhadores por conta própria ganhavam R$ 804,70. Uma diferença de R$ 247,90.

"É importante lembrar que a competitividade do empregado do setor privado está na contratação. Mas, uma vez contratado, ele tem estabilidade. Diferente do autônomo, que sente essa questão de oferta e demanda", afirma o professor do Insper.

 

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