Expansão do crédito denota opção pelo consumo

A colaboração do Banco Central (BC) com o ministro da Fazenda se reflete nas estatísticas das operações do sistema financeiro: o crédito aumentou numa proporção que levou a instituição a mudar de 11% para 14% sua projeção de alta do crédito livre em 2011.

, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2011 | 00h00

O estoque de crédito cresceu 1,6% no mês, representando 46,9% do Produto Interno Bruto (PIB), ante 46,6% no mês anterior. Na realidade, só há afrouxamento nas operações diretas do BNDES, que crescem apenas 0,8%, limitando em 1,6% o aumento das operações direcionadas, apesar do crescimento de 3,5% do crédito habitacional, que já tem um estoque de R$ 151,8 bilhões.

O que nos parece importante é o crédito com recursos livres, cujo estoque é de R$ 1,182 trilhão, que se distribui em partes quase iguais entre pessoas físicas (PFs) e pessoas jurídicas (PJs). Para as PJs, o estoque cresceu 1,5% e para as PFs, 2,1%, o que sugere uma preferência para os consumidores sobre os produtores. No entanto, para uma avaliação mais objetiva da tendência, parece-nos preferível examinar as concessões acumuladas, que acusam crescimento de 9,1%, para as PJs, e de 10,5%, para as PFs. Parece existir uma nítida vontade de voltar a estimular o consumo das famílias, o que, no caso de descasamento com a produção, terá a diferença preenchida por importações favorecidas pela cotação do dólar. Tudo nos leva a crer que o desenvolvimentismo da Fazenda conquistou o BC.

Pode-se dizer que as autoridades monetárias contam com uma taxa de juros elevada, de 31,1% ao ano para as empresas e de 46,8% para as famílias. Mas sabemos que os consumidores brasileiros se interessam apenas pelo prazo das operações, que em média aumentou de 567 para 570 dias, enquanto, para as empresas, caiu de 391 para 388 dias, isto é, bem abaixo das PFs.

Neste quadro da política de crédito se registra um aumento da inadimplência - de 3,7% para 3,9%, no caso das empresas, e de 6,1% para 6,4%, no das famílias - que não parece preocupar as autoridades, enquanto a conjuntura econômica for favorável.

Os dados divulgados pelo BC até o dia 13 de junho parecem confirmar que a tendência do mês de maio não mudou: o estoque de créditos aumentou 1,4% (1,9% para as famílias e 0,9% para as empresas) e os juros médios, para as famílias, atingiram 47,6% e, para as empresas, 31,4%.

Temos de constatar que as medidas macroprudenciais não chegaram a pôr um freio na expansão do crédito, que continua sendo a grande fonte de sustentação da demanda doméstica. Este sempre foi o objetivo do ministro da Fazenda.

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