Coluna

Fabrizio Gueratto: como o investidor pode recuperar suas perdas no IRB Brasil

Imagem Paulo Leme
Colunista
Paulo Leme
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Expansão do Estado durante a pandemia

Somente o Estado tem a capacidade de mobilizar recursos na velocidade e magnitude necessárias para reduzir o impacto médico e econômico da pandemia

Paulo Leme*, O Estado de S. Paulo

03 de maio de 2020 | 05h00

Hoje, completamos quatro meses convivendo com o coronavírus. A cada dia que passa, fica claro que a mortalidade e os custos econômicos da pandemia em matéria de recessão, desemprego, e destruição de capital serão muito maiores do que imaginávamos em fevereiro. 

Parte disto é devido à transmissibilidade e a letalidade do vírus, o que não controlamos. A outra parte é uma grande falha institucional, a que deveríamos controlar. Muitos governos foram incapazes de se mobilizar em tempo real e coordenar com o setor privado os recursos necessários para testar e tratar a população e encontrar rapidamente soluções científicas para controlar a pandemia. 

A melhor maneira de limitar os impactos econômicos e financeiros da pandemia é financiar a pesquisa e ciência. No curto prazo, temos que aumentar exponencialmente o número e melhorar a confiabilidade dos testes e desenvolver um passaporte imunológico (testes sorológicos de imunidade robustos combinados com aplicativos de rastreamento) para reabrir com segurança a economia mundial. Enquanto isto, pesquisadores e empresas farmacêuticas ganham tempo para desenvolver remédios e vacinas para combater o coronavírus.

Porque as nossas instituições falharam? Uma hipótese é que as revoluções nas áreas de informática e inteligência artificial avançaram à velocidade da luz, enquanto que as nossas formas de organização social e política regrediram, tornando-as ineficientes no combate à pandemia. 

Por um lado, a classe política falhou naquilo que é a principal responsabilidade do Estado: proteger os seus cidadãos. Nós os elegemos, mas eles não nos representam e não defendem os nossos valores e interesses. 

Por outro lado, no plano internacional, há um vácuo de liderança. A arquitetura construída após a segunda guerra mundial e baseada na coordenação e cooperação multilateral de Bretton Woods ruiu. Estamos passando de um mundo globalizado, coordenado, e altamente integrado economicamente e financeiramente para um mundo bipolar, marcado pela atrofia da liderança americana e a consolidação das ambições chinesas. A União Europeia, que sempre atuou como o fiel da balança, se perdeu desde o Brexit, enquanto que gigantes do passado, como a Rússia, se aproveitam deste vácuo de liderança geopolítica para reconstruir a sua influência internacional. 

Em 2020, a economia mundial sofrerá a sua pior recessão desde a grande depressão dos anos 1930. Até 2019, cadeias globais interdependentes de produção reduziram custos e alavancaram a produtividade e o crescimento global. No entanto, a pandemia expôs a fragilidade deste sistema, gerando desconfiança e alimentando sentimentos nacionalistas. Na medida que isto reduza drasticamente os fluxos de comércio internacional e de capitais, cairemos na mesma armadilha protecionista que agravou a depressão dos anos trinta. 

Somente o Estado tem a capacidade de mobilizar recursos na velocidade e magnitude necessárias para reduzir o impacto médico e econômico da pandemia. Desde fevereiro, entre política fiscal, monetária e creditícia, governos gastaram aproximadamente US$ 15 trilhões (6 vezes o PIB do Brasil). Portanto, os governos terminarão a crise do coronavírus altamente endividados. O contribuinte arcará com o aumento da carga tributária, mas ele receberá apenas uma fração destes recursos em termos dos bens e serviços médicos necessários para podermos ligar com segurança os motores economia global.

Os bancos centrais compraram o equivalente a US$6 trilhões em ativos financeiros, para os quais não havia demanda no mercado. No curto prazo, esta medida salvou o mercado financeiro. No entanto, no longo prazo, os bancos centrais podem ter criado um mercado zumbi e sem a capacidade de alocar capital de acordo com critérios de retorno, risco e eficiência.

Nos países emergentes, além de uma tragédia humanitária iminente, muitos governos e empresas estão fadados a dar um calote em suas dívidas externas. 

A boa notícia é que, com a ajuda da ciência, voltaremos em breve às nossas atividades normais, reduzindo o custo da pandemia em termos de crescimento e emprego. A má notícia é que algumas das escolhas que estamos tomando hoje estão penhorando nosso bem-estar no futuro. 

A pandemia deixará pelo menos três legados: o cerceamento da liberdade, o crescimento do Estado, e governos e bancos centrais que terão que tributar pesadamente não só os contribuintes e poupadores de hoje como também aqueles que ainda estão por nascer. 

PROFESSOR DE FINANÇAS  NA UNIVERSIDADE DE MIAMI 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.