'Expansão foi favorecida por condições externas'

Fim dos altos preços das matérias-primas deu início à desaceleração na América Latina e no Brasil, diz a OCDE

Entrevista com

Angel Melquizo, chefe do Escritório de América Latina e Caribe da OCDE

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2015 | 02h08

PARIS - A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Instituto da América Latina apresentaram nesta quinta-feira, 26, em Paris, o relatório "Perspectivas Econômicas da América Latina", o mais importante estudo da instituição sobre a saúde financeira da região. Segundo os experts, a região cresceu em 2014 no pior ritmo dos últimos cinco anos, entre 1% e 1,5%. Deve se recuperar parcialmente em 2015, chegando a 2% a 2,5%, mas ainda em patamar muito inferior às suas possibilidades.

A organização aponta contrastes fortes, com o México crescendo acima de 2,5%, enquanto o Brasil oscila no máximo 1%. Para os especialistas, é o fim de uma era de crescimento baseado em condições externas muito favoráveis.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

O ano de 2014 foi um ano de desaceleração muito forte no Brasil e na América Latina. Do que a economia do Brasil e da América Latina necessitam?

O ano de 2014 marcou uma tendência da região de desaceleração econômica que já dura cinco ou seis anos. Foi o primeiro anos em que o Brasil cresceu abaixo da média dos países da OCDE, dos países de renda alta, por exemplo. Sobre as medidas de que a economia brasileira necessita, está claro que se trata de investir mais em crescimento potencial, em crescimento de longo prazo. Após uma década de muito bom desempenho, em torno de 5% ao ano no conjunto da região, o que vemos é que boa parte do crescimento era devido a condições externas muito favoráveis. Os ingressos por matérias-primas foram extraordinários e o financiamento, sobretudo proveniente de economias desenvolvidas, muito flexível. Esses dois fatores externos acabaram, e por isso vemos uma desaceleração tão abrupta e uma volta aos fundamentos da região.

Maus fundamentos?

Débeis fundamentos. Piores que os que se pensava na metade da década passada. Mas os fundamentos do Brasil não são para ficar estagnado, e sim para crescer 3%, 3,5% de maneira estável. E até mesmo esse crescimento nos parece baixo para uma economia que quer deixar de ser de renda média para uma de renda elevada. O que esse contexto de desaceleração está mostrando é que se deve investir em melhor educação para o trabalho. Hoje na América Latina 4 em cada 10 empresas não encontram o trabalhador que precisam. No caso do Brasil, 3 em cada 4 empresas brasileiras têm atividades e ideias, mas não têm o trabalhador que precisam. Unir essa oferta e demanda seria um dos ingredientes que poderiam recuperar a economia em curto e médio prazos.

Este é um dos problemas estruturais da economia brasileira. Quais são o outros?

Como todas as economias emergentes, há muitos outros. Claramente a infraestrutura é um deles. O Brasil sabe disso e está tentando melhorar, sobretudo em transporte e energia. A vantagem do Brasil, que também pode ser um desafio, é que o tamanho da arrecadação fiscal é relativamente elevado. O Brasil arrecada em torno de 35% do PIB, que é parecido com a média da OCDE. Por outro lado, tem pouca margem para elevar a carga. Claramente se trata de reajustar os gastos públicos, fazendo menos gastos com hoje e mais com o futuro. Reorganizar o gasto público em busca de mais eficiência.

Alguns experts falaram em "reprimarização" da economia, não apenas do Brasil mas de outros países da América Latina também. Por quê?

Quando há um parceiro comercial tão pujante como a China, que demanda produtos como soja, petróleo e minerais a preço muito alto, a tentação de direcionar os esforços da economia para produzir esses produtos é muito grande. Essa é uma das teorias para explicar o que se passou nos últimos anos na América Latina: a de que os países tenham se voltado para matérias-primas que eram mais demandadas pela China. Nós, da OCDE, somos um pouco cautelosos: não acreditamos em risco de "reprimarização", e cremos que há empresas de outros setores, de alto valor agregado, que têm muita necessidade e muitas ideias. Isso é uma oportunidade.

Você acredita que estamos em um momento de esgotamento do modelo econômico do Brasil e da América Latina, como pensam alguns experts que falaram aqui?

Creio que temos de evitar a euforia nos bons tempos e a depressão nos maus. Crescer a 3%, e não 5%, implica ter muitos menos recursos para algumas políticas que foram chave para reduzir a pobreza. Implica ter muito menos recursos para inovar, para investir. Temos pouca margem de erro. Acreditamos que os modelos e as estruturas econômicas da América Latina têm de ser reformadas e diversificar-se em atividades de mais alto valor agregado. O grande problema da América Latina se chama baixa produtividade, que continua a perder terreno em relação a economias desenvolvidas, quando o normal seria que os emergentes se saíssem melhor, porque podemos evitar o que outros fizeram mal e reproduzir o que fizeram bem.

Você crê que este momento de aperto da política fiscal no Brasil é correto, que é o momento de reequilibrar as contas públicas?

Estamos numa realidade em que o financiamento dos países emergentes está complicado. Há opções, e elas têm a ver com a reorganização dos gastos públicos, e fazer com que eles sejam mais produtivos. No caso do Brasil, obviamente, o que precisa ser pensado é que margem de manobra existe para o ajuste neste momento.

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