Expansão traz desequilíbrios, dizem economistas

Para Affonso Celso Pastore e Raul Velloso, situação é provocada pelo modelo de[br]crescimento do País

Fernando Dantas / RIO, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

O modelo de crescimento brasileiro torna impossível que a economia se mantenha no atual ritmo de expansão sem provocar graves desequilíbrios, como inflação ou déficits externos excessivos. Esse é, em síntese, o recado das apresentações complementares dos economistas Affonso Celso Pastore e Raul Velloso no 22.º Fórum Nacional, realizadas ontem no Rio.

Pastore, consultor e ex-presidente do Banco Central (BC), projetou um crescimento de 7% ou mais em 2010. Na sua visão, para crescer 5,5% ao ano de forma sustentada e prolongada, o Brasil precisaria ter uma taxa de investimentos de 25% do PIB. Ele acha que, em 2010, a taxa de investimentos pode voltar a 19% do PIB, depois de ter caído para 16% com a crise global.

O problema, disse Pastore, é que, para chegar a 25% de taxa de investimentos, "o déficit em conta corrente teria de ser alto e muito provavelmente não sustentável". Ele acrescentou que, naquele caso, o déficit poderia alcançar 7%, 8% ou até 9% do PIB. Pastore baseou suas estimativas em projeções sobre o crescimento da produtividade e da população economicamente ativa.

Além de assinalar os limites ao ritmo de expansão atual, Pastore e Velloso buscaram diagnosticar as causas mais profundas das restrições ao crescimento potencial brasileiro. Pastore mostrou dados históricos indicando que no Brasil, ao contrário de outros países, a poupança doméstica não cresce com a taxa de investimentos - bem ao contrário, a tendência é a de que ela caia.

Velloso exibiu um gráfico indicando que a trajetória do investimento do governo, além de mostrar grande queda em relação aos anos 70, foi acompanhada de declínio constante da poupança pública. Assim, os gastos correntes vêm crescendo acima do PIB por longo período, com despesas incomprimíveis ligadas a transferências (salários, aposentadorias, pensões e benefícios sociais) e à saúde saindo de 47% do Orçamento da União em 1987 para 84% em 2009. Segundo ele, existe "um complô pró-aumento de gasto", estimulado pela autonomia do Legislativo e Judiciário em estabelecer os próprios salários; pela não regulamentação do direito de greve do funcionalismo; pela infiltração sindical no governo; e pelas frequentes iniciativas de flexibilizar os controles das despesas públicas.

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