Expectativa de analistas sobre economia brasileira cai a menor nível em um ano

Índice de Clima Ecônomico recua de 7,8 pontos para 7,3 pontos de janeiro para abril; 4 de 11 países da AL apresentam piora no clima econômico 

Alessandra Saraiva, da Agência Estado,

19 de maio de 2010 | 09h21

As expectativas dos analistas quanto aos rumos futuros da economia brasileira pioraram em abril, e atingiram o menor nível em um período de um ano. A conclusão consta da Sondagem Econômica da América Latina, feita em parceria pelo Institute for Economic Research at the University of Munich, ou Instituto IFO, e a Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Segundo as duas instituições, o Índice de Clima Econômico (ICE) do Brasil caiu de 7,8 pontos para 7,3 pontos de janeiro para abril. Embora este resultado ainda seja considerado positivo para o País, o Índice de Expectativas (IE), um dos dois sub-indicadores que compõem o ICE, recuou de 7,8 pontos para 6,4 pontos no mesmo período - o pior resultado desde abril do ano passado, quando atingiu 5,4 pontos.

As entidades consideram que resultados abaixo de cinco pontos nos índices indicam "clima ruim", e desempenhos acima de cinco pontos ainda são considerados positivos. No Brasil, embora tenha ocorrido piora nas expectativas, houve uma melhora na avaliação sobre o momento presente: o Índice Situação Atual (ISA), o outro sub-índice que completa o resultado do ICE, subiu de 7,7 pontos para 8,1 pontos de janeiro a abril no País.

Em seu comunicado, as instituições revelam que, de janeiro para maio, além do Brasil, outros quatro países entre 11 pesquisados apresentaram piora no clima econômico. É o caso de Argentina, Chile, Equador, e Venezuela. Segundo as entidades, Chile e Brasil se diferenciam dos demais por ainda se encontrarem em uma fase de "boom econômico". Equador e Venezuela continuam em recessão; enquanto a Argentina caminha para um processo de lenta recuperação na economia. Por sua vez, Bolívia, Colômbia, México, Peru e Uruguai apresentaram melhora de clima econômico, de janeiro a abril deste ano. Já o Paraguai manteve o mesmo patamar de clima econômico no período.

Ainda segundo o mesmo levantamento, o ICE da América Latina permaneceu estável de janeiro para abril, permanecendo com 5,6 pontos no período. Entretanto, de uma maneira geral, houve uma piora nas expectativas dos analistas quanto o futuro da economia na região:o IE da América Latina recuou de 7,1 pontos para 6,4 pontos. Mas houve uma melhora na avaliação sobre o momento presente no período. O ISA da América Latina saltou de 4,0 pontos para 4,7 pontos de abril para maio.

A Sondagem Econômica da América Latina é trimestral. Para a pesquisa de abril foram consultados 152 especialistas em 17 países.

Aperto monetário

A preocupação com o avanço da inflação e a percepção de que o consumo no mercado doméstico brasileiro este ano não será tão forte quanto no passado esfriaram as expectativas dos analistas quanto ao futuro da economia do País nos próximos meses. Responsável pela divulgação do ICE, a economista e professora da FGV, Lia Valls, comentou ainda que há um consenso cada vez maior entre os analistas de que o ano de 2010 contará com medidas de maior aperto monetário, com alta de juros, para ajudar a conter o avanço da demanda e, por consequência, a arrancada da inflação no País. De janeiro para abril, as estimativas de inflação no Brasil dos analistas para 2010 aumentaram de 4,5% para 5,3%, do levantamento anterior para a pesquisa anunciada hoje.

Além disso, de acordo com Lia, os analistas observam que, diferentemente do que ocorreu em 2009, o Brasil não contará este ano com grande número de incentivos fiscais para consumo - como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) em automóveis e produtos de linha branca efetuado no ano passado.

Entretanto, a especialista fez uma ressalva. Ela comentou que a avaliação dos analistas sobre o momento presente na economia brasileira em abril atingiu o melhor nível da série, em 21 anos. Ou seja: os analistas podem pensar que a economia brasileira já vive um momento de "pico" e não teria como melhorar ainda mais. "Acho que esta piora tem que ser um pouco qualificada; tivemos ótimas avaliações sobre o momento presente na economia; e isso pode ter influenciado as perspectivas futuras dos analistas quanto ao Brasil", disse. "Mas é claro que, se tudo estivesse bem, as expectativas não teriam caído", avaliou.

Mesmo com a boa avaliação do momento, os analistas pesquisados para cálculo do ICE mostram que o País ainda conta com alguns problemas. Os mais citados em abril por especialistas foram falta de competitividade internacional; falta de mão de obra qualificada; déficit público - além da já citada inflação. Na prática, estes também foram os principais problemas citados pelos analistas para todas as economias da América Latina.

Mas de uma maneira geral, a avaliação dos analistas sobre a economia latino-americana é boa, na análise da economista da fundação. "Se comparar com outros países desenvolvidos, a América Latina conta com um cenário melhor. Temos vários países experimentando boom econômico", afirmou. Ela afirmou que a pesquisa para o ICE foi realizada antes do agravamento da situação da economia na Grécia; bem como seu reflexo nos mercados financeiros mundiais. 

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