Expectativa de fluxo leva dólar a nova mínima em 1 ano

Notícias favoráveis ao Brasil também colaboram com queda da moeda americana, cotada a R$ 1,7870

Taís Fuoco, da Agência Estado,

23 de setembro de 2009 | 17h18

O mercado doméstico de câmbio encontrou motivos de sobra nesta quarta-feira, 23, para se descolar completamente da relação do dólar ante outras moedas e dos fundamentos macroeconômicos do exterior. Um misto de fluxo de entrada e notícias favoráveis ao Brasil levaram a divisa nesta quarta a uma nova queda recorde em 12 meses. No mercado à vista, o pronto da BM&F chegou à menor cotação desde 22 de setembro e fechou a R$ 1,7830, com queda de 0,83%. No balcão, o recuo da moeda americana foi de 0,61%, a R$ 1,7870, depois de oscilar entre a máxima de R$ 1,80 e a mínima de R$ 1,7820. O giro com liquidação em dois dias (D+2) na Clearing de Câmbio era, perto das 17h10, de US$ 1,81 bilhão, segundo o site da BM&F.

 

Ainda que a nota de grau de investimento dada nesta última terça-feira pela Moody's já estivesse precificada pela maior parte dos investidores, o fato de ela chegar em um momento em que o mercado está propício ao risco e em busca de novos campos para seus recursos só fortalece a percepção de que mais dinheiro virá para o País, outro fator de pressão sobre o dólar, quando as captações externas foram retomadas e as ofertas de ações começam a sair do papel.

 

"Há um descolamento em relação a outros indicadores e em relação às moedas de fora, muito pela expectativa de fluxo de entrada", pontuou Gabriel Aguilera, operador de câmbio da Flow Corretora. Existem fundos internacionais que só podem ingressar em país que tenha três selos de investment grade. Além disso, só em emissões de ações primárias e secundárias o Brasil recebeu a declaração de intenção de algo como US$ 13 bilhões de agosto para cá, das quais a maior é a do Santander. Em termos de captação externa, já fizeram operações recentes empresas como Votorantim, Banco do Brasil, Bradesco, CSN e Banco Cruzeiro do Sul.

 

Com isso, os analistas e operadores começam a acreditar que o piso de R$ 1,80 ficou para trás. A Gradual Investimentos, por exemplo, já estima que o dólar chegue a R$ 1,70 no final do ano e a Flow Corretora pensa em rever sua atual projeção, de R$ 1,75.

 

Segundo André Perfeito, economista da Gradual, o fato do Fed ter reiterado sua taxa de juros nesta tarde só fortalece o movimento de apreciação do real. "A atual política monetária dos Estados Unidos, que deve se manter pelo menos nos próximos meses, força a queda do dólar em todos os lugares do mundo", acredita.

 

O Banco Central dos EUA manteve o juro inalterado na faixa de zero a 0,25% ao ano, nível em que está desde dezembro passado, mas também ressaltou os sinais de recuperação econômica. O Fed anunciou também que vai estender seu programa de US$ 1,25 trilhão de compras de ativos lastreados em hipotecas até o próximo ano para ajudar o mercado financeiro a se ajustar. O banco central vai "gradualmente desacelerar o ritmo destas recompras de modo a promover uma transição suave nos mercados e antecipa que eles serão executados até o fim do primeiro trimestre de 2010", disse o Fed, em comunicado.

 

O Fed votou por dez a zero par manter a taxa dos Fed funds entre zero e 0,25%, nível recorde de baixa. O banco central também reiterou que espera que as taxas continuem em níveis excepcionalmente baixos "por um período prolongado de tempo", segundo a agência Dow Jones.

 

Outra notícia que pode pressionar ainda mais o dólar para baixo foi a de que o fundo soberano da China está interessado em comprar títulos de dívida emitidos pelo governo brasileiro, depois da elevação do rating do Brasil. A informação foi dada pelo secretário-adjunto do Tesouro, Paulo Valle, em entrevista à agência Dow Jones. Valle, que participa do fórum de investimento China-América Latina, em Pequim, disse que se reuniu com autoridades do China Investment Corp. (CIC) para discutir a questão. Segundo ele, as autoridades com quem conversou demonstraram interesse particular em bônus atrelados à inflação denominados em real, mas nenhum acordo concreto foi fechado.

 

"Atualmente, o excesso de caixa no mundo, procurando por melhores retornos, em meio à manutenção da política de juros externos muito baixos e os juros locais ainda elevados (especialmente em relação ao risco-país do Brasil e um pouco mais agora com a terceira nota de grau de investimento), formam uma conjuntura bastante favorável para as aplicações em ativos brasileiros", disse Miriam Tavares, diretora de câmbio da AGK, em sua análise diária.

A questão que alguns operadores começam a levantar é até onde vai a capacidade do BC de enxugar a liquidez do mercado. Hoje o Banco Central realizou leilão de compra de dólares até às 12h52 e fixou a taxa de corte a R$ 1,7917. Em seguida, a moeda americana, em queda desde a abertura da sessão de hoje, passou a ser negociada a R$ 1,7900 no balcão, com queda de 0,44%, na mínima do dia, e a R$ 1,7910, recuo de 0,39%, na BM&F.

 

Segundo informações da própria autoridade monetária hoje, o impacto das compras diárias de dólar realizadas pelo Banco Central no mercado cambial à vista somou US$ 2,274 bilhões em setembro até o dia 18. As reservas aumentaram US$ 1,638 bilhão apenas na terceira semana de setembro, entre os dias 14 e 18. Desde que o BC retomou as compras diárias, em 8 de maio passado, já foram retirados US$ 13,056 bilhões do mercado.

 

Questionado sobre o tamanho das reservas internacionais, que superam US$ 223 bilhões, Valle, do tesouro, disse que o governo não estabelecerá nenhum teto para elas. Embora o Banco Central se esforce para evitar volatilidade na moeda local, "nós não teremos meta em termos de tamanho de reservas internacionais ou nível de câmbio", afirmou ele.

 

O fluxo cambial da terceira semana de setembro reverteu a trajetória observada até o dia 11 do mês. Dados divulgados pelo Banco Central mostram que o País recebeu US$ 789 milhões, entre os dias 14 e 18, em movimento contrário à fuga de US$ 1,768 bilhão acumulada nas duas semanas anteriores. A entrada de dólares na semana passada ocorreu na conta financeira, que teve saldo positivo de US$ 1,280 bilhão, resultado de entradas de US$ 7,302 bilhões e saídas de US$ 6,022 bilhões. Nas duas primeiras semanas do mês, a conta financeira estava negativa em US$ 277 milhões. Na conta comercial, a terceira semana do mês teve déficit de US$ 491 milhões, com exportações de US$ 2,051 bilhões e importações de US$ 2,542 bilhões. Esse resultado agravou a tendência observada nas duas semanas anteriores, quando houve saída de US$ 1,491 bilhão na conta comercial. Na terceira semana do mês, o maior fluxo cambial foi registrado no dia 17, quando o Brasil recebeu US$ 1,109 bilhão, sendo que US$ 1,031 bilhão foi registrado na conta financeira.

 

No mercado de moedas, o dólar teve movimentos confusos durante o dia, mas perto das 17 horas a divisa americana subia ante o euro, iene e libra. O euro caía 0,49%, a US$ 1,4738, enquanto o dólar subia 0,58%, para 91,33 ienes, e a libra perdia 0,18%, a US$ 1,6360.

Tudo o que sabemos sobre:
dólarcâmbio

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.