Experimentalismo

Ao longo de 2012, sobrou para os grandes bancos centrais do mundo a tarefa de apagar focos de incêndio que os próprios governos atearam ou foram incapazes de debelar.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2012 | 02h04

Em tempos de prostração econômica, como os de agora, o mais respeitado economista do século 20, John Maynard Keynes, recomendava que os governos aumentem as despesas. Precisam promover obras públicas para criar renda, gerar demanda e reativar a atividade econômica. Mas os Tesouros não estão somente quebrados; estão incapacitados de expandir suas dívidas. Assim, diante do buraco negro fiscal, os bancos centrais assumiram a tarefa de fomentar a salvação do seu país ou do seu bloco monetário.

Em consequência disso, as políticas monetárias (políticas de juros) enveredaram para os limites da irresponsabilidade especialmente nos Estados Unidos - onde o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), conduzido pelo economista Ben Bernanke (foto), passou a navegar por águas nunca dantes navegadas por bancos centrais.

Como, nos Estados Unidos, estão à altura de quase zero por cento ao ano, os juros não podem cair mais. Depois de ter injetado nada menos do que US$ 2,8 trilhões na economia em apenas cinco anos por meio da recompra de títulos públicos e de ativos privados, e de já ter anunciado que, antes de meados de 2014, não se deve esperar por alta dos juros, na segunda semana de dezembro o Fed anunciou radicalização também jamais vista de sua política monetária. Além dos US$ 40 bilhões de dólares mensais em ativos hipotecários que começou a comprar em setembro, anunciou a aquisição, também mensal, de US$ 45 bilhões em títulos do Tesouro. Explicou que, enquanto o nível de desemprego estiver acima de 6,5% da força de trabalho e as projeções de inflação indicarem, para os próximos dois anos, índice abaixo de 2,5%, os juros se manterão rastejantes.

Ao longo de 2012, a presidente Dilma Rousseff condenou o comportamento do Fed e de outros bancos centrais. Acusou-os de provocar tsunamis monetários nos países em desenvolvimento, por meio da entrada maciça de moeda estrangeira que valoriza as moedas nacionais (baixa do dólar) - fator que tira competitividade do setor produtivo. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, por sua vez, preferiu chamar esse mesmo efeito de guerra cambial, cuja principal consequência é o enfraquecimento da indústria brasileira pela quebra de sua capacidade de competir.

Até agora não ficaram claros os efeitos predatórios sobre a economia nacional. O governo conseguiu com certa facilidade desvalorizar o real em cerca de 20% mediante compra diretas de moeda estrangeira ou de operações no mercado de derivativos. Mas, neste final de ano, quando as emissões de moeda dos grandes bancos centrais se acentuou, em vez de comprar dólares, o Banco Central do Brasil fez o contrário - desta vez, para não permitir uma desvalorização ainda maior do real que elevasse a inflação.

Ninguém sabe quais os limites e as consequências dessa atuação experimentalista do Fed. E tampouco está claro qual o procedimento que prevalecerá caso a inflação volte com força e se, ao mesmo tempo, não se tiver reativado o emprego. Ou seja, não está nítido se o Fed dedicará prioridade ao combate à inflação, por meio da retirada de dinheiro da economia, ou se ao combate à estagnação, com injeção de recursos. Mas a presidente Dilma parou de combater o tsunami monetário.

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