Exploração de ouro ignora crise

Com preço em alta, mineradoras instaladas no Brasil aumentam produção e preveem novos investimentos

Eduardo Kattah, BELO HORIZONTE, O Estadao de S.Paulo

31 de dezembro de 2008 | 00h00

O ano de 2008 fechou repleto de más notícias na mineração: preços em queda, demanda despencando, empresas demitindo e adiando investimentos. Esse cenário catastrófico, no entanto, toma uma feição bem diferente quando o minério a ser extraído é o ouro. Com uma valorização, no Brasil, de 32,1% no ano - foi o investimento mais rentável de 2008 -, o produto vem se beneficiando da crise global.As principais mineradoras instaladas no País estão no meio de um ciclo de expansão e afirmam não ter planos de reduzir ou adiar investimentos. A canadense Kinross, por exemplo, concluiu em novembro a expansão da sua unidade em Paracatu (MG), um investimento de US$ 550 milhões que triplicou a capacidade de produção anual da empresa - de 5,4 para 17,2 toneladas de ouro por ano - e a transformou na maior empresa do setor no Brasil.Outra gigante global, a AngloGold Ashanti, de origem sul-africana, concluiu em dezembro a compra da São Bento Mineração, também em Minas Gerais, que pertencia à canadense Eldorado Gold. O valor do negócio foi de US$ 70 milhões, em ações. Em 2009, a mineradora pretende desembolsar US$ 120 milhões para financiar operações, projetos e pesquisas nas minas de Lamego - vizinha à mina de Cuiabá, localizada em Sabará, região metropolitana de Belo Horizonte - e Córrego do Sítio, na cidade mineira de Santa Bárbara.Na verdade, é difícil entender o porquê de o ouro se manter como um ativo tão valorizado no mundo - sua cotação subiu mais de 200% desde 2001. Não é um produto essencial para a indústria e há tempos não é mais utilizado como padrão de referência monetária global. Mas continua a exercer um fascínio que já dura milênios, e ganha mais força nesses tempos de crise. "O ouro se valoriza porque os bancos centrais e os bancos particulares, em busca de segurança financeira nos investimentos, se voltam para ativos palpáveis", diz José Roberto Freire, vice-presidente regional da Kinross no Brasil. Por isso, segundo ele, a crise mundial acaba trazendo "reflexos positivos" para a empresa."O ouro é uma reserva de valor e, nos momentos de crise, geralmente se espera que as pessoas corram para esse porto seguro", afirma o gerente-geral de finanças da AngloGold Ashanti, Agostinho Tibério da Costa Marques. O executivo ressalta, contudo, que o metal normalmente tem uma correlação negativa com o fortalecimento do dólar. Muitos investidores buscam o ouro como alternativa de investimento para períodos de desvalorização da moeda americana. "Quando o dólar se fortalece, geralmente o ouro perde."O preço do ouro rompeu este ano a marca dos US$ 1.000,00 a onça (medida que equivale a 31,1 gramas). Chegou a ser vendido a US$ 1.032 em março (ou US$ 33,2 o grama). Em setembro, com o estouro da crise mundial e o completo desarranjo dos mercados internacionais, a cotação desabou para cerca de US$ 700. Depois, se recuperou e fechou o ano cotado a US$ 859 a onça (ou US$ 27,6 o grama). PRODUÇÃOAté 2011, as mineradoras de ouro instaladas no Brasil preveem investir US$ 1,5 bilhão, segundo dados do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Em 2008, a estimativa do instituto é que o País tenha alcançado uma produção de 55 toneladas de ouro, o que o coloca como 13º maior produtor mundial. Além de Kinross e AngloGold, outros significativos investimentos de ouro no País serão feitos nos próximos dois anos pelo grupo canadense Yamana Gold, que controla duas mineradoras na Bahia. O grupo deve desembolsar US$ 407 milhões na ampliação e manutenção de suas operações, incluindo a implantação de uma nova unidade de produção no município de Santaluz.A Kinross, após a expansão em Paracatu, que resultou na criação de 200 empregos, não descarta também crescer no País por meio de compras. Segundo José Roberto Freire, a empresa tem um caixa de US$ 700 milhões, e está "atenta" a oportunidades de aquisições no Brasil.Já a AngloGold diz que, apesar do cenário positivo, vai se esforçar agora para otimizar os custos de produção, embora não cogite demissões. É que, embora os investimentos programados para o Brasil estejam mantidos, a matriz do grupo programou um corte de US$ 400 milhões no plano de investimentos para 2009.

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