Explosão de crédito ameaça bancos chineses

Temor aumentou após alerta da agência de classificação de risco Fitch e reconhecimento do problema pelo banco central do país

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

A preocupação com a saúde financeira dos bancos chineses aumentou ontem, depois que a agência de classificação de risco Fitch alertou que o país poderá enfrentar uma "ressaca" provocada pela explosão de crédito nos últimos dois anos. O banco central do país também afirmou que é "difícil ignorar" a montanha de dinheiro emprestada a entidades criadas pelos governos provinciais para escapar dos limites de endividamento impostos por Pequim.

As ações na Bolsa de Xangai sofreram a maior queda em três semanas, por causa do temor do mercado de que o governo vai restringir a habilidade dos bancos de conceder crédito. A medida seria adotada por meio do aumento da taxa de adequação de capital, que poderia alcançar 15% até 2012, segundo rumores que circularam ontem. Na prática, isso significa que os bancos deveriam ter mais recursos imobilizados para garantir seus investimentos, o que reduz a quantidade de dinheiro disponível para empréstimos.

Na segunda-feira, o primeiro-ministro Wen Jiabao já havia manifestado preocupação com os riscos representados pelos financiamentos que bancos concederam aos chamados "veículos de investimentos" das províncias.

Essas entidades tinham em março US$ 1,09 trilhão em dívidas com as instituições financeiras chinesas, uma alta de 70,4% em relação a igual período de 2009, segundo o organismo responsável pela regulamentação do setor. Na avaliação do governo, só 27% desses créditos têm como garantia ativos sólidos.

O valor dos empréstimos para os "veículos de investimentos" equivale a quase um quinto do PIB chinês e supera o tamanho das economias de vários países. O que preocupa os analistas é o risco de parte significativa dessa dívida não ser paga, o que teria impacto em bancos e, em última instância, nas contas públicas.

Riscos ocultos. Os bancos chineses são estatais e ninguém acredita que o governo deixaria que quebrassem. "Parte do custo do estímulo ainda vai se materializar no balanço soberano, como os débitos das companhias de investimentos locais", escreveu Andrey Colquhoun, chefe da área de débito soberano da Fitch para a região Ásia-Pacífico.

Na avaliação da analista de bancos chineses da Fitch, Charlene Chu, não há dúvida de que haverá uma deterioração da qualidade dos ativos do sistema financeiro em razão do rápido aumento de crédito provocado pelo pacote de estímulo adotado em novembro de 2008. Só em 2009, os bancos concederam empréstimos de US$ 1,4 trilhão, o dobro do ano anterior. A previsão para 2010 é de mais US$ 1 trilhão.

A grande dúvida, segundo ela, é saber qual a dimensão do problema e se ele poderá provocar uma crise na China, país que assumiu neste ano o posto de segunda maior economia mundial.

Os sinais de que a preocupação está em alta foram reforçados por declarações do vice-presidente da Comissão de Regulamentação dos Bancos da China (CRBC), Jiang Dingzhi, segundo o qual as grandes instituições financeiras precisam de regulamentação mais estrita e taxas de adequação de capital mais elevadas que as menores.

Na semana passada, o presidente da CRBC, Liu Mingkang, afirmou que o governo não poderia ignorar a ameaça de "riscos sistêmicos ocultos" no setor: "O sistema de gerenciamento de riscos do setor bancário da China tem muitas deficiências".

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