Suzano Papel e Celulose/Divulgação
Suzano Papel e Celulose/Divulgação

Juros

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Explosão do dólar encarece em quase R$ 1 tri dívidas de empresas no exterior

Custo já acumula alta de R$ 907 bilhões no ano; mercado vê 20% de empresas que não contam com instrumentos de proteção à variação de câmbio

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2020 | 05h00

A disparada do dólar que na última terça-feira chegou a bater R$ 5,90, maior patamar da história da moeda diante do real, aumentou em R$ 907 bilhões o total que bancos e empresas terão de desembolsar para fazer frente às dívidas no exterior. Ainda que os empréstimos na moeda estrangeira tenham crescido pouco no período, a variação cambial faz com que sejam necessários quase R$ 1 trilhão de reais a mais para pagar os mesmos compromissos. De acordo com o Banco Central, a dívida total em dólar das empresas no Brasil está em US$ 482 bilhões (R$ 2,84 trilhões).

Segundo o BC, a situação é complicada para cerca de 20% das empresas brasileiras que não contam com instrumentos de proteção à variação de câmbio, chamado de hedge cambial pelo mercado, o que deixaria esses empreendimentos totalmente vulneráveis às flutuações do dólar. Esse dado sobre o hedge é de 2018, mas segundo Carlos Antonio Rocca, coordenador do Centro de Estudos de Mercado de Capitais da Fipe (Cemec-Fipe), essas empresas não aumentaram de maneira expressiva o investimento em instrumentos de proteção desde então. "Esses negócios estão à mercê do dólar e o aumento de 47% do dólar dificulta a vida", diz.

Dados da própria Fipe, indicam que, na média, as grandes empresas brasileiras - com o capital aberto e fechado - estão, neste momento, com 57,7% de sua dívida total em moedas estrangeiras, um aumento superior a 10 pontos porcentuais do início do ano para cá. "Esse aumento acontece porque o dólar subiu e desequilibrou a proporção, que antes era minoritária", afirma Rocca. 

Sozinhas, as companhias de capital aberto, que têm mais acesso aos recursos externos, ampliaram sua exposição em dólar de 57,3%, no início do ano, para 66,2%. As de capital fechado foram de 35,9% para 45%. O levantamento da Fipe abarca um universo com 1.599 empresas, sendo 288 delas abertas e 1.311 fechadas.

US$ 482 bilhões

Dados do BC mostram que a dívida externa de bancos e empresas somavam US$ 482 bilhões no fim de março. Esse valor inclui empréstimos bancários, títulos de dívida, crédito comercial e operações intercompanhias - por exemplo, dinheiro que as sedes de companhias multinacionais enviam à título de empréstimo para subsidiárias locais. 

Em dólar, o montante não oscila expressivamente há cinco anos. Convertida para reais, a dívida passou do equivalente a R$ 1,939 trilhão no começo de janeiro para R$ 2,846 trilhões na última terça-feira, dia 13 - uma diferença de R$ 907 bilhões.

O cenário pode assustar os investidores que recebem com preocupação os dados divulgados na atual temporada de balanços financeiros, mas é preciso tempo para saber qual o impacto real do dólar no caixa das companhias. Isso porque só uma pequena parte desse débito é de curto prazo, o resto será quitado nos próximos anos.

Mesmo assim, analistas do mercado financeiro observam com atenção o momento, Segundo eles, apesar das grandes empresas hoje protegerem uma parte da dívida com ferramentas disponíveis no mercado, ainda há aquelas muito expostas. "Empresas do setor aéreo, algumas importadoras e varejistas ainda investem pouco em hedge", diz um operador de mesa de câmbio que pede para não se identificar.

Um exemplo é o da Azul Linhas Aéreas. A empresa tem hoje uma dívida bruta de R$ 20 bilhões, mas, desse montante, R$ 14 bilhões são referentes ao arrendamento das aeronaves, portanto em dólar. Em seu último balanço, a empresa afirma que faz hedge apenas dos custos com combustível, adquirido em moeda estrangeira. Deixa com isso 70% de sua dívida flutuando ao sabor dos humores cambiais.  

Em nota, a Azul informa que, para minimizar a alta do dólar, negociou uma postergação do pagamento dos arrendamentos das aeronaves, mas não informou os novos prazos. "Neste cenário, usamos um hedge natural que é basicamente aumentar o preço das passagens para compensar a pressão nos custos devido a variação cambial", afirma, em nota.

Proteção natural

Outras empresas, além da Azul, também têm boa parte de sua dívida em dólar. Mas por serem exportadoras, recebem em dólar e, por isso, não se preocupam com a aquisição de produtos financeiros que travem a cotação do dólar. É o caso da Suzano, que produz papel e celulose. As variações cambiais e monetárias impactaram negativamente o resultado financeiro da Suzano em R$ 12,420 bilhões no primeiro trimestre de 2020, mas isso tende a ser relativizado pelo investidor. Em torno de 94% da dívida bruta da empresa é calculada em dólar. Ao mesmo tempo, 83% da sua receita líquida no período foi gerada no mercado externo. 

"Seguimos otimistas com a tese de investimentos e mantemos a recomendação de compra (de ações da Suzano", escreveu na última terça a analista da XP Investimentos Betina Roxo.

"A gente precisa dividir o efeito do dólar na dívida. Uma coisa é a marcação da dívida e outra e o efetivo pagamento. A explosão da dívida tem um efeito no balanço agora mas não tem efeito de caixa no futuro", afirma o diretor-geral do banco Indosuez, Fábio Passos.

Periodicamente, o BC estima o total da dívida externa das empresas sem proteção cambial. O dado mais recente, de abril, aponta o valor equivalente a 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB) - essa proporção era de 9% em 2016.

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