Fabio Motta/Agência Estado
Desde que a embarcação naufragou, a Petrobras investiu R$ 81,6 bilhões na área de Segurança, Meio Ambiente e Saúde. Fabio Motta/Agência Estado

Explosão na plataforma P-36 deixou marcas na indústria de petróleo do mundo todo

Cobrança por medidas de mitigação dos riscos ganhou importância na pauta dos sindicatos de petroleiros; irregularidades na operação, porém, ainda persistem

Denise Luna e Fernanda Nunes, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2021 | 05h00

RIO DE JANEIRO - A explosão na plataforma da Petrobrás P-36 deixou marcas na indústria de petróleo do mundo todo. De um lado, serviu de lição do que não deve ser feito por empresas do setor. Algumas regras ficaram mais rígidas, inclusive em outros países. O acidente também disseminou a insegurança entre os trabalhadores. A cobrança por medidas de mitigação dos riscos ganhou importância na pauta dos sindicatos de petroleiros. Ainda assim, irregularidades na operação persistem.

Na última década, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) multou em R$ 769 milhões companhias petrolíferas por lacunas na operação de plataformas. Unidades instaladas no litoral brasileiro ainda falham, por exemplo, na detecção de vazamentos de gás e da presença de fogo. Em algumas delas, o sistema de combate ao incêndio é insatisfatório. E são muitos os riscos nos processos de paralisação de plataformas e de abandono de poços.

 “Qualquer metal no meio do mar sofre ação da natureza, vai corroendo, os equipamentos vão quebrando. A gente acaba improvisando, vivendo com o que tem. As pessoas ficam em risco”, disse um técnico em Segurança de Operação, que pediu anonimato, sobre as condições de segurança de plataformas paralisadas na bacia de Campos.

A Petrobrás diz ter aprendido com a P-36.  “A companhia criou o Programa de Excelência Operacional das Unidades Marítimas, baseado nas conclusões da investigação do acidente”, afirmou, por meio da sua assessoria de imprensa. Segundo a empresa, foram aprimorados os procedimentos de emergências e as exigências técnicas na hora de definir um projeto.

Desde que a embarcação naufragou, a estatal investiu R$ 81,6 bilhões na área de Segurança, Meio Ambiente e Saúde (SMS). Mas não conseguiu ser absolvida na ação movida pelo Ministério Público Federal e Ibama, da qual recorre até hoje.

David Zylberstajn, diretor-geral da agência na época, afirma que, para o órgão regulador, o acidente não teve consequências, já que não houve falha de regulamentação. Mas foram tomadas medidas corretivas após a tragédia, como ocorre em grandes acidentes.

“Qualquer acidente, quando cai um avião, o que se fala é que se lamenta a perda de vidas, mas muitas são poupadas depois. É muito parecido, mas foi um acidente muito incomum, tanto que em tantos anos é um caso único de afundamento”, explicou. 

A visão de Francisco Duarte, professor de Engenharia de Produção da Coppe/UFRJ, é também de que acidentes como esse não acontecem de uma hora para a outra. “São erros latentes. Não adianta procurar no operador (trabalhador) as causas. Elas são de processo", avalia. 

Um erro primário, em sua opinião, é a falta de comunicação entre os profissionais que desenham a plataforma e os operadores da unidade. "Muitas vezes, o engenheiro projeta uma plataforma sem nunca ter subido em uma", afirma. Por isso, a nova fronteira em termos de segurança nessa indústria diz respeito a fatores humanos, segundo o especialista. 

"Por conta desse processo de sucateamento da empresa, com a redução do efetivo nas unidades operacionais, próprios e terceirizados, temos receio de um acidente ampliado de processo ocorrer nas refinarias, terminais e plataformas da Petrobrás", afirma o coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar. 

Marcos Breda, que coordenou o Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF) de 2014 a 2017, acrescenta que profissionais da linha de frente na operação de plataforma estão sendo terceirizados, o que aumenta o risco de acidentes.

A Petrobrás respondeu que “o controle de estabilidade nas unidades próprias da Petrobrás é realizado por profissionais certificados pela Marinha do Brasil”.

O acidente na P-36 serviu, no entanto, para endurecer algumas regras internacionais, como as da Associação das sociedades classificadoras (IACS), segundo Segen Estefen, coordenador do Laboratório de Tecnologia Submarina da Coppe/UFRJ.

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Famílias sofrem há 20 anos com lembranças do naufrágio da plataforma de petróleo P-36

Acidente matou 11 trabalhadores, dos quais apenas dois tiveram os corpos encontrados; a plataforma afundou cinco dias depois de sofrer duas explosões

Denise Luna e Fernanda Nunes, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2021 | 05h00

RIO DE JANEIRO - Vinte anos após o naufrágio da plataforma de petróleo P-36 da Petrobras, no campo de Roncador, na bacia de Campos, as famílias que foram impactadas pela tragédia ainda sofrem com a lembrança do acidente que matou 11 trabalhadores, dos quais apenas dois tiveram os corpos encontrados. A plataforma afundou cinco dias depois de sofrer duas explosões, na madrugada do dia 15 de março de 2001, por um problema no fechamento de uma válvula, segundo relatório da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), causado por "não conformidades quanto a procedimentos operacionais, de manutenção e de projeto".

O trauma permanece até hoje, diz Walisson Antônio dos Santos, na época com 14 anos, que foi tirado da sala de aula sem saber o que estava acontecendo.  “Só falaram para eu ir para casa”, conta entre lágrimas, apesar de duas décadas já terem passado. Hoje trabalhando com informática e morando em São Paulo, o filho de Laerson Antônio dos Santos, um dos nove corpos não encontrados, guarda um “santinho” feito pela mãe com a foto do pai.  Na memória, Santos guarda os pés de moleque com guaraná que tomava de café da manhã com o pai em Aracaju, Sergipe, nos dias que passava com a família.

“Minha mãe entrou em depressão profunda, perdeu 30 quilos em menos de 15 dias, não conseguia comer, ficava no quarto, trancada, triste, sofrendo, e eu que tive um dia chegar para ela que eu precisava de alguém para poder me sustentar, e só então ela começou a se reerguer, mas até hoje ela sofre muito”, lamenta.

Ele lembra a agonia de aguardar notícias sobre o pai nos cinco dias que se seguiram à explosão. “Toda manhã a gente tinha esperança, mas toda noite a gente começava a chorar, porque paravam as buscas”, recorda. Na manhã do dia 20, acordou com a tia gritando “afundou, afundou”, e a família perdeu a esperança de rever o pai. Para ele, doeu muito a tentativa de salvar a plataforma no meio daquela tragédia, e se questionava se o petróleo valia mais do que a vida do seu pai.     

“A gente recebeu indenização sim, demorou muito, mas recebeu. Eles (Petrobras) pagaram escola, faculdade e plano médico até os meus 23 anos. Eu fiz faculdade, me formei ,  mas eu não queria nada disso, eu queria que meu pai me visse formado”,  afirma.

De acordo com a Petrobras, toda assistência foi prestada às famílias dos empregados, com o acompanhamento de assistentes sociais, pagamento de indenização às famílias, além do pagamento integral de mensalidades escolares dos filhos, despesas com tratamento psicoterápico para dependentes e para os empregados envolvidos diretamente no acidente. Além disso, manteve o plano de saúde para os pais dos empregados falecidos, entre outras ações de reparação. 

Esposa de um colega de Laerson, Sergio Santos Sousa, ambos da brigada de incêndio da Petrobras, a viúva Helena Alves Santos Sousa, foi uma das únicas a enterrar o marido, e até hoje sofre, principalmente por causa do filho, hoje com 23 anos. “Ele esses dias mesmo me disse que estava esquecendo a fisionomia do pai. Ele embarcou no dia seguinte do aniversário de três anos dele”, relembra. Ela conta que estava ao telefone com Sérgio quando ele escutou um barulho e desligou para ver o que era. “Ele disse que ia ver e depois me ligava, amanheci no sofá esperando”, conta.  

Todo dia 15 de março Helena vai ao evento promovido pela Federação Única dos Petroleiros (Fup) em Macaé, onde é realizado uma ato simbólico com a participação também de funcionários da ativa.  Este ano o ato será online, por causa da pandemia. “Esse ato ajuda não só a nós, como a todos os funcionários na ativa a lutar por melhores condições de trabalho”,  avalia.

Testemunha da explosão dos tanques, o então técnico de operação da P-36 Evanildo Souza e Silva conta que, até hoje, é assombrado pelas “imagens dantescas” do acidente. Por um acaso, sobreviveu. No momento em que explodiu o segundo tanque, ele estava na sala de operação, na parte superior da embarcação, para pegar um rádio e se comunicar com o pessoal em terra.

Silva fez parte do grupo de apenas 28 embarcados que permaneceu na plataforma em busca de sobreviventes. Ele deixou o local apenas quando a unidade começou a adernar, sem conseguir resgatar qualquer colega de trabalho. “A cena que a gente viu é chocante. Não dava para reconhecer nossos companheiros. Algumas viúvas me ligavam atrás de alguma informação e eu tinha que contar algo diferente. Amanhecia o dia e eu não dormia. Nunca mais fui a uma festa”, diz.

Por responder pela operação de um dos tanques que explodiu, o técnico foi apontado como um dos responsáveis pelo acidente em processo judicial. Foi absolvido por falta de provas, mas, segundo ele, ainda tenta na Justiça ser indenizado pelas perdas com a tragédia. Hoje, está aposentado e recebe remuneração do fundo de pensão da estatal, a Petros.

A viúva Luzineide Lima participou por 16 anos consecutivos dos atos da Fup do dia 15 de março. Todas as vezes em que assistia petroleiros chegando das plataformas revivia a dor da espera pelo marido. Neste ano, vai passar a data isolada, por conta da pandemia. “Vou rezar em casa, no meu cantinho”, informa ela.

Como ela, Alice Andrade, cunhada de uma das vítimas, diz que a irmã, Marilena Souza tem conseguido tocar a vida adiante por conta da religião. Elas foram juntas à Macaé (RJ) em busca de informações, acompanhadas de um pastor, no dia seguinte ao acidente. Deixaram a cidade dois dias depois. “Quando a plataforma afundou, a gente não estava mais lá. Foi uma forma de diminuir o sofrimento”, afirma.

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