Exportação de carne se recupera, mas com restrições

Segundo produtores, vendas de frango e suínos têm aumentado, mas controle externo ficou mais rigoroso depois da Carne Fraca

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 05h00

Depois de um início de ano turbulento por causa da Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal, em março, os produtores de Santa Catarina devem terminar 2017 com recuperação das exportações de carne suína e de frango. Até outubro, a venda de carne de aves havia crescido 13,7% e a de carne suína, 21,5%. Santa Catarina é o maior produtor de carne suína do Brasil e o segundo maior de frango.

Com a operação da Polícia Federal, os produtores locais sofreram um revés, que foi se dissipando no decorrer dos meses. “No momento da divulgação, os mercados externos se retraíram e suspenderam as importações. Mas o Ministério (da Agricultura e Pecuária) agiu rapidamente para mostrar que não havia problema com a qualidade do produto nacional”, afirmou o diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados de Santa Catarina (Sindicarne), Ricardo de Gouvêa.

Apesar de os volumes terem sido retomados, segundo os produtores, as exportações têm sofrido algumas restrições. “A relação de confiabilidade mudou”, disse o diretor do Sindicarne. Gouvêa explica que, antes da Operação Carne Fraca, os importadores faziam uma fiscalização por amostragem. Hoje, fazem de quase tudo que importam. “O tempo de desembaraço do produto lá fora aumentou consideravelmente. Eles continuam comprando, mas fazem uma série de exames na carne. O processo mudou.”

Mesmo assim, o presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos, Wolmir de Souza, que representa 25 produtores, afirma que o assunto Carne Fraca está superado. “Atualmente, temos outras questões para nos preocupar, como as restrições impostas pela Rússia à carne bovina e suína do Brasil. A medida está valendo desde 1.º de dezembro e pode afetar a produção catarinense, se o embargo persistir.”

O serviço veterinário e fitossanitário da Rússia detectou na carne exportada substâncias e estimulantes para o crescimento da massa muscular dos animais. Por ora, afirma Souza, a medida não afeta a produção do Estado uma vez que o país europeu reduz – ou praticamente zera – as importações nessa época do ano por causa do inverno rigoroso. “Nessa época, o mar congela e os navios não conseguem atracar nos portos.”

De qualquer forma, a medida tem reflexo negativo, uma vez que traz incertezas para o setor. O resultado é que os produtores acabam vendendo o animal antes do planejado e inundam o mercado, provocando uma superoferta, explica Souza. Ou seja, os preços caem e a rentabilidade diminui.

Peso na economia. O setor de carnes tem grande relevância no Estado. Qualquer alteração afeta de forma significativa a economia local. Segundo o secretário de Agricultura de Santa Catarina, Airton Spies, o agronegócio representou 29% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado no ano passado, sendo que o setor de carnes responde por 60% do agronegócio. “A força da proteína animal é muito grande no Estado”, afirma o secretário, destacando que o setor ajudou Santa Catarina durante a crise do País. “Não tivemos nenhum ano com PIB negativo e hoje nossa taxa de desemprego é de apenas 6,3%.” Na avaliação dele, uma das explicações é o volume de exportação. O agronegócio, diz o secretário, representa 61% das exportações de Santa Catarina. “Somos uma economia globalizada.”

O diretor executivo do Sindicarnes lembra que na época da Carne Fraca, embora apenas uma unidade do Estado estivesse envolvida no escândalo, todo o setor teve a credibilidade arranhada. A questão afetou a reputação do processo de fiscalização e inspeção feito por órgãos do governo federal. “Hoje, em termos de mercado, apenas duas ou três nações não retomaram as importações do Brasil. Mas são países pequenos.”

Em compensação, diz Gouvêa, outros mercados foram abertos, compensando as perdas. No fim de novembro, o mercado catarinense comemorou a decisão das Filipinas de voltar a importar carnes do Brasil. O Estado é o maior fornecedor brasileiro de carne suína e de frango para o país asiático, que suspendeu as importações do Brasil por preocupações sanitárias. A medida foi tomada logo após os Estados Unidos proibirem a compra de carne bovina in natura do Brasil em junho, após vários carregamentos não passaram no controle de qualidade americano.

Gouvêa destaca ainda que o mercado japonês também tem sondado a carne catarinense. “Eles já vieram para cá, fizeram vários exames e atestaram a qualidade do produto do Estado.”

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