Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

'Exportações darão tempo para discutirmos o processo eleitoral', diz economista-chefe do Santander

Para executiva, retomada da agenda de reformas pode ser esperada apenas para o próximo governo, em 2023; até lá, inflação deve ser a preocupação imediata

Entrevista com

Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander Brasil

Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2021 | 05h00

O "boom" de commodities deve comprar tempo para o Brasil passar por uma "tumultuada" eleição presidencial em 2022 e voltar ao caminho das reformas no início do próximo governo, avalia a economista-chefe do Santander Brasil e ex-secretária do Tesouro NacionalAna Paula Vescovi. "O setor externo é o grande fator que nos dá tempo para endereçar aquilo que pode tirar o Brasil de uma deterioração macroeconômica mais séria", diz, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast para contar sobre a mais recente revisão de cenário.

Ana Paula Vescovi e a equipe macroeconômica do Santander apostam em um pleito polarizado, sem opção no centro ainda, e que tende a trazer bastante volatilidade para os ativos, o que justifica a nova previsão de depreciação cambial prevista para o ano que vem, com o dólar em R$ 5,55.

Na revisão de cenário, ela define que o "grande mote" é a maior preocupação com a inflação, com uma "tempestade perfeita" temporária, que deve levar o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a romper o teto da meta este ano (projeção de 5,90%) e ficar bem acima do centro (estimativa de 3,90%) no ano que vem. A perspectiva, porém, é de resposta "à altura" da política monetária. O banco projeta que a taxa Selic vai chegar a 7,00% no início de 2022.

Em relação ao crescimento econômico este ano, houve atualização de 3,0% para 3,60%, após os dados melhores de atividade do primeiro trimestre, mas a ex-secretária do Tesouro revela cautela com a reabertura rápida da economia em meio à resiliência dos indicadores da segunda onda da pandemia de covid-19. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Qual foi o motivo para a revisão do PIB? E ainda há alguma cautela com o desempenho da atividade este ano, considerando que muitas projeções foram para casa de 4,0%?

Em primeiro lugar, nosso cenário é mais positivo para a atividade, com a revisão para 3,60%. Os riscos são para um cenário mais positivo do que isso. Por que essa moderação em alterá-lo? Está claro que a relação de mobilidade com atividade mudou em relação ao ano passado, na primeira fase da pandemia, provavelmente porque o setor produtivo e os consumidores se adaptaram a essa realidade de distanciamento. O que estamos observando é se realmente vamos ter uma saída mais tranquila da segunda onda. Ou seja, estamos vendo na margem algum aumento de hospitalizações, os novos casos estão em patamar bem resiliente. Então, em função disso, mantemos uma posição mais cautelosa. A inflação, que eu acho que é o grande mote dessa revisão, se acelerando tira a capacidade de crescimento. Na nossa visão, há uma perspectiva de crescimento contido em função dessa dinâmica inflacionária. Resumindo tudo, é um cenário cauteloso, sim. Vemos possibilidades mais para riscos altistas para a atividade, mas gostaríamos de observar essa saída da segunda onda.

É o que vocês descrevem no relatório como 'risco de reabrir muito cedo', com o relaxamento de medidas mais rápido do que imunizações?

É exatamente isso. Nós aumentamos o nosso cenário base de vacinação média diária, com 1 milhão de doses por dia, porque, às vacinas já contratadas, se somou o imunizante da Pfizer, com a entrada de cerca de 15 milhões de doses por mês nos próximos meses, em uma quantidade de 100 milhões de doses. Isso implica que seria razoável a estimativa de vacinação mais rápida. A nossa expectativa seria mais alta. Mas o que estamos vendo é que há fricções no processo de entradas do IFA [Insumo Farmacêutico Ativo], na produção de vacinas, na distribuição e fricções, inclusive, na gestão entre primeira e segunda dose. Todo esse processo de complexidade tem trazido para baixo a média de vacinas diárias, estamos descendo para cerca de 700 mil doses por dia. Isso leva à possibilidade de termos mais do que pico de novas hospitalizações, mas uma resiliência maior para à melhora de indicadores de casos, hospitalizações, mortes e, portanto, mobilidade nos próximos meses, principalmente quando entrar o inverno no Brasil. Há perspectiva de ter resiliência maior de estatísticas da pandemia em função dessa abertura.

Além da mudança na relação entre mobilidade e atividade, há outro fator que explica a surpresa com os dados no primeiro trimestre, em um momento de pausa no auxílio emergencial?

Há dificuldade de dados de mercado de trabalho, porque a pandemia também afeta a coleta do IBGE e também do Caged. Não está tão claro quanto deveria estar o cenário do mercado de trabalho. Dito isso, acho que essa surpresa vem, primeiro, de uma questão estatística. O impulso, o carregamento, deixado pelo quarto trimestre foi muito positivo. Em segundo lugar, o que a gente percebeu é que, ou por poupança das famílias ou por outras fontes de financiamento, o consumo se mostrou resiliente. Houve uma queda em março, por causa do fechamento. Antes do fechamento, tivemos resultados muito positivos no varejo e recuperação relativamente boa no setor de serviços, provavelmente pela poupança, pela recuperação da confiança e também pela maior demanda por crédito.

A revisão para inflação foi bastante significativa para 2021 e 2022, mas vocês ainda qualificam a dinâmica inflacionária como temporária. Não há risco de desancoragem com três anos de inflação acima da meta?

Sempre que há uma convergência dessa natureza, com a inflação ultrapassando o limite da meta, inclusive a banda de tolerância, tendo que convergir de novo para o centro da meta, ou seja, de cima para baixo, há riscos, obviamente. O que deixamos claro no relatório é que acreditamos que a política monetária vai ter uma resposta à altura, ou seja, a política monetária no Brasil está comprometida com o alcance do centro da meta. Só vai demorar um pouco mais, vai ser mais gradual, em 2023. A gente já começou o segundo trimestre mirando 2022 na política monetária e o fato é que os choques vieram, do lado da oferta e demanda, e começam a gerar efeitos secundários, a se disseminar. A gente fez um apanhado de razões por que a inflação deve se acirrar no curto e no médio prazo e que isso deve demandar uma política monetária mais apertada. Mas, em termos gerais, não tem como a gente acreditar que não seja temporária.

O BC deve mudar logo a sua comunicação, que ainda sinaliza intenção de promover normalização parcial da política monetária?

A política monetária tem que expressar por meio de seus instrumentos que está perseguindo realmente o centro da meta. Esse é o alvo da Selic. Por exemplo, nós acreditamos que brevemente, nos próximos comunicados, nas próximas reuniões do Copom [Comitê de Política Monetária], vai haver um abandono dessa possibilidade de haver uma normalização parcial. Então, a normalização seria plena para poder deixar claro o objetivo de alcançar o centro da meta. O BC já deu um sinal de que não necessariamente precisa haver a normalização parcial. Isso vai depender da inflação ou atividade nos próximos meses, mas achamos que isso tende a acontecer por força desse cenário inflacionário, e que o Banco Central deve alcançar Selic de 7,0% em 2022.

Mas já há uma perspectiva de quando ele mudaria essa comunicação?

Temos uma trajetória para a taxa Selic, de mais duas altas de 0,75 ponto porcentual e, depois, quatro altas consecutivas de 0,50 ponto porcentual, chegando a 7,0% no primeiro trimestre de 2022. Se estivermos certos, acreditamos que, provavelmente na próxima reunião, o BC já deva sinalizar uma normalização contínua. Obviamente, há riscos positivos para esse cenário. De ter uma surpresa positiva de reformas, com um bom conteúdo, de relativa valorização cambial, riscos do processo inflacionário nos Estados Unidos não ir tão além quanto esperamos, ou de a atividade de alguma forma frustrar.

Nos EUA, a visão também é de inflação temporária? A ata do Fed trouxe alguma novidade?

Fed [Federal Reserve, o banco central americano] se demonstrou mais preocupado na medida em que fala que mais integrantes do comitê sinalizaram preocupação com a inflação. Mas o que todos esperam que aconteça é que o primeiro passo do Fed será reduzir compra de papéis no mercado, reduzindo a injeção de liquidez. Mas também, na ata, o Fed diz que vai olhar o objetivo de normalização do mercado de trabalho, ainda que tolerando alguma inflação. E os últimos dados de mercado de trabalho nos EUA, embora positivos, ficaram aquém das expectativas. São cenários dúbios, são comunicações dúbias. É um cenário de incertezas na saída de pandemia. Ainda que percebamos pressões inflacionárias, principalmente nos EUA mais claras, acreditamos que, antes de ver um movimento dos bancos centrais, vamos ter de observar uma recuperação mais enfática do mercado de trabalho.

Nas últimas semanas, se acumularam vários eventos e notícias negativas para o governo. O Orçamento secreto, a CPI da Covid, investigações com acusações sérias contra o ministro do Meio Ambiente... Quais as consequências disso para a imagem do País e também para a economia, com o governo sob pressão?

Eu diria que nós já consideramos um cenário político polarizado. Todos esses eventos, poderíamos chamar outros que poderiam acontecer nos próximos meses, vão culminar com o processo eleitoral. Vemos um processo eleitoral bem polarizado. Existe ainda a possibilidade de surgir uma candidatura de centro que ofereça uma terceira via a essa polarização, mas não tem dados concretos para colocá-la como cenário base. No momento, acreditamos em muita volatilidade nos preços de ativos. Por isso, a taxa de câmbio que se deprecia mais no ano que vem, mas que fica menos instável no fim deste ano por causa da normalização da política monetária. Vemos um cenário eleitoral bastante tumultuado, com bastante eventos até o fim do processo eleitoral.

No âmbito fiscal, a percepção é de maior calmaria no mercado depois do Orçamento e considerando fatores pontuais que devem ajudar a dívida este ano. No entanto, a resolução do Orçamento abriu novas brechas no teto. O cenário não inspiraria mais preocupação?

Todo esse quadro inflacionário, que é a nossa revisão mais importante, tem uma consequência para a política fiscal. A receita capta mais rapidamente o aumento da inflação do que as despesas, que estão de alguma forma limitadas pela regra do teto. O ambiente inflacionário por mais tempo acaba ajudando a acomodar, por uma razão ruim, mais endividamento público. Vamos ter a percepção de dívida bruta caindo este ano e se mantendo abaixo de 90% no ano que vem. O fiscal ganha tempo em função de um financiamento inflacionário dos orçamentos públicos. O risco fiscal está presente, mas já está no preço. Temos que ter um cuidado, porque a política monetária não consegue atuar sobre a inflação sozinha quando há um risco fiscal muito alto. Nós temos uma dívida muito alta. E, nos próximos anos, tirando eventos pontuais, deve convergir a 100% do PIB. Os superávits primários para estabilizar a relação dívida/PIB só devem acontecer na próxima década. Isso traz um risco de execução muito grande.

Como vocês disseram no relatório, o governo continua 'caminhando em gelo fino' para evitar deterioração maior?

O cenário externo mudou muito pouco, mas mantivemos os aspectos que afetam a taxa de câmbio. O cenário externo é o grande fator que nos leva a ter tempo neste momento para endereçar o que pode tirar o Brasil de uma deterioração macroeconômica mais séria. Temos tempo porque temos maiores exportações. Tudo bem que não traz tantos aspectos positivos para a atividade como traria se tivéssemos condições de colher uma apreciação cambial usual, que tem sido contida pelos riscos idiossincráticos brasileiros. Mas, ainda assim, o setor externo compra tempo para que a gente possa discutir o processo eleitoral brasileiro e as pautas importantes da sociedade, e para que a gente possa chegar em 2023 voltando ao cenário de reformas. Porque só o cenário de reformas pode nos tirar de uma deterioração mais séria do cenário macroeconômico.

Então novas reformas só no próximo governo?

Pode acontecer algo, mas não está no nosso cenário base. E mais importante do que acontecer uma ou outra reforma é o conteúdo, o impacto que vai ter na atividade. É uma questão mais importante do que dizer que foi aprovada uma reforma. Dito isso, acreditamos que vamos precisar esperar o desanuviamento do cenário político de polarização para poder ter clareza do que vem de reformas, de qual é a pauta que vai ser vencedora do pleito eleitoral.

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