Exportações do agro em 2014

ANDRE NASSAR E LUCIANE BACHION

O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2014 | 02h05

Desde 1999 as exportações brasileiras do agronegócio seguem uma tendência de crescimento, que foi interrompida em 2009, sob o efeito da crise mundial e da retração da demanda internacional. No ano seguinte, as exportações retornaram ao seu curso de expansão. Neste ano estamos prestes a novamente presenciar uma situação semelhante à de 2009, com queda das exportações.

Em 2014 as exportações brasileiras do agronegócio deverão ser inferiores às de 2013 em, aproximadamente, 3,4% no volume e 2,3% na receita. Essa redução é resultado de uma combinação de fatores, entre eles redução no preço internacional de alguns produtos e queda da produção por problemas climáticos ou más políticas.

De janeiro a outubro de 2014 as receitas das exportações do agro caíram 5% em relação ao mesmo período de 2013. As importações também caíram, mas em menor proporção, 4%, gerando um menor saldo de comércio, comparado ao mesmo período do ano anterior.

A redução esperada do saldo comercial em 2014, no entanto, precisa ser analisada olhando os setores. O que se verifica é que ela está concentrada em milho e sucroenergético. Ou seja, não se pode afirmar que o ciclo de expansão das exportações do agro visto desde 2009 tenha se encerrado. O que 2014 comprova, porém, é que a expansão das exportações, se ela ocorrer a partir de 2015, vai depender unicamente do crescimento do volume, e não mais de aumentos de preços.

A queda nas exportações de milho, 27% em volume e 44% em valor, já era esperada. 2013 foi um recorde, fruto da quebra da safra americana de 2012 e do bom desempenho da safra brasileira em 2013. As exportações de milho este ano não deverão atingir 20 milhões de toneladas, inferiores aos 26,6 milhões de toneladas de 2013. Além disso, os preços estão 20% mais baixos.

O estrago maior e, este sim, muito preocupante é no setor sucroenergético. Acumulando a crise financeira pela qual passam as empresas e a falta de chuvas este ano, que provocou uma forte queda na moagem de cana-de-açúcar - por causa da menor produtividade -, as exportações de açúcar e etanol serão 12% e 55% menores do que no ano passado, respectivamente. Além disso, com os preços internacionais de açúcar em patamares mais baixos, o valor exportado será 21% menor.

Diferentemente do caso do milho, em que a queda nas exportações em 2014 não reflete crise no setor, no caso do sucroenergético a queda é mais uma das más consequências de uma política de subsídio ao preço da gasolina e da ausência de incentivos para a bioeletricidade de biomassa. Além disso, os problemas climáticos de 2014 deixarão fortes rastros na safra da cana de 2015, que também terá baixa produtividade e, consequentemente, moagem abaixo do potencial.

Apesar da redução no total das vendas externas do agro, alguns setores tiveram desempenho positivo, crescendo tanto no volume como no valor exportado. Mesmo com preços desfavoráveis na soja em grãos, o bom desempenho da safra do País viabilizou o crescimento das exportações, que aumentaram 7% em volume e 4% em valor.

As exportações de carne também cresceram, com destaque para a bovina, que nos primeiros dez meses de 2014 cresceu 9% em valor. Dois fatores contribuíram para esse cenário positivo: a maior capacidade dos frigoríficos em adicionar valor aos cortes e o aumento da demanda externa pelo produto brasileiro, puxado pela reabertura do mercado chinês e pelo aumento das importações da Rússia.

Esses mercados também foram importantes para as exportações de carne de frango. O aumento de 136% no volume dessa carne exportado para a Rússia e a habilitação de novas plantas de exportação para a China acrescentaram, entre janeiro e outubro de 2014, 83,8 milhões de toneladas ao volume total exportado pelo Brasil, comparado ao mesmo período do ano anterior.

Sabemos que a agricultura sofre consequências negativas em anos de turbulência econômica, sobretudo se o governo for obrigado a reduzir sua participação no financiamento da safra. A safra de 2015 passou ilesa. O mesmo não deve ocorrer em 2016.

SÃO, RESPECTIVAMENTE, DIRETOR-GERAL E PESQUISADORA SÊNIOR DA AGROICONE

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