AFP PHOTO / DOUGLAS MAGNO
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Exportações têm queda de 37% por dia na greve

Superávit comercial do País em maio foi de US$ 729 milhões, menos de 30% do previsto

Fabrício de Castro e Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2018 | 04h00

A greve dos caminhoneiros, que paralisou o transporte de mercadorias nos últimos dez dias de maio, afetou negativamente as transações correntes do Brasil com o exterior. Dados divulgados nesta segunda-feira, 25, pelo Banco Central mostram que o País registrou superávit em conta corrente de US$ 729 milhões em maio, equivalente a 29,2% dos US$ 2,5 bilhões projetados pelo BC para o mês. O resultado está diretamente ligado à queda das exportações, em decorrência da dificuldade que as empresas tiveram para levar produtos até os portos.

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O resultado das transações correntes reflete a relação do Brasil com os países nas áreas comercial (exportações menos importações), de serviços e de renda. “As exportações foram afetadas pela greve dos caminhoneiros. Elas caíram 2,8% em maio deste ano em relação a maio de 2017, na primeira redução desde dezembro de 2016”, pontuou o chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha, ao apresentar os dados.

No mês passado, as exportações somaram US$ 5,6 bilhões, sendo que esse resultado se deve em grande parte ao movimento nas três primeiras semanas de maio, quando a greve dos caminhoneiros ainda não havia começado. Em maio de 2017, as exportações haviam sido de US$ 7,4 bilhões. Na prática, como as exportações travaram, entraram menos dólares no País. 

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Rocha destacou ainda que, nas três primeiras semanas do mês, a média diária de exportações foi de US$ 1,1 bilhão. Nas duas últimas semanas, porém, já com a greve, a média diária de exportações caiu cerca de 37%, para US$ 671 milhões.

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Por outro lado, segundo Rocha, o efeito da greve tende a se dissipar ao longo do tempo. “Este mês, a recuperação das exportações ocorreu de forma gradual. Na primeira e na segunda semana de junho, ainda houve exportações abaixo da média pré-greve dos caminhoneiros.” Com a recuperação a ser vista nas semanas seguintes, a estimativa do BC para a conta corrente em junho é de estabilidade.

No ano, até maio, o País registra déficit em conta corrente de US$ 4,02 bilhões. A cifra não preocupa, já que a conta de Investimento Direto no País (IDP) – que diz respeito aos aportes produtivos de investidores estrangeiros – mostra que o Brasil já recebeu US$ 23,3 bilhões em 2018 até maio.

Viagens. O dólar mais caro já faz com que os brasileiros sejam mais cautelosos nos gastos em viagens no exterior. Os dados do Banco Central mostram que as despesas de turistas em viagens internacionais cresceram 8% em maio na comparação com maio de 2017. O ritmo é inferior ao observado nos quatro primeiros meses de 2018, quando as despesas cresciam a uma velocidade próxima de 11%.

“Está havendo, de fato, desaceleração no ritmo das despesas nas viagens internacionais. Isso é esperado diante da desvalorização do câmbio”, disse Rocha, ao comentar que o dólar alto normalmente reduz o ritmo do crescimento das despesas antes de diminuí-las.

Em maio, quando o dólar turismo subiu 6,66% ante o real, a diferença entre o que os brasileiros gastaram lá fora e o que os estrangeiros desembolsaram no Brasil restultou em saldo negativo de US$ 1,2 bilhão. Em igual mês de 2017, o déficit nessa conta foi de US$ 1,1 bilhão. 

Produção industrial. A paralisação dos caminhoneiros afetou fortemente o desempenho da indústria nacional. De acordo com a Sondagem Industrial divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a interrupção do fluxo de mercadorias reduziu a produção industrial, aumentou a ociosidade no setor e provocou acúmulo de estoques indesejados. 

“O resultado foi claramente influenciado pela interrupção dos serviços de transportes terrestres em maio, que prejudicou o fluxo de insumos e mercadorias”, cita o estudo. Segundo a CNI, a produção costuma aumentar de abril para maio, como ocorreu entre 2011 e 2013 e em 2017 (este último influenciado pelo grande número de feriados em abril daquele ano). 

No entanto, a crise no abastecimento não confirmou a tendência neste ano. O estudo mostra que o índice de evolução da produção caiu de 48,8 pontos em abril para 41,6 pontos, bem abaixo da linha divisória de 50 pontos da pesquisa. Na comparação com 2017, o índice de maio de 2018 é 12,2 pontos menor.

A Utilização da Capacidade Instalada ficou em 63%, com recuou de 3 pontos porcentuais em relação ao mês anterior. “O porcentual é o menor para o mês de toda a série histórica mensal, com início em 2011.”

O indicador de evolução dos estoques efetivos em relação ao planejado subiu para 53,3 pontos em maio. O índice varia de 0 a 100 pontos, valores acima de 50 pontos indicam que os estoques estão acima do planejado. A sondagem de maio foi feita entre 4 e 14 de junho com 2.204 indústrias – 920 pequenas, 780 médias e 504 de grande porte. 

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