Werther Santana|Estadão
Werther Santana|Estadão

Exportadoras de grãos investem para adaptar projetos no Porto de Santos

Recursos são destinados também a atender exigências ambientais da Cetesb

Leticia Pakulski, Enviada especial a Santos (SP)

12 de maio de 2016 | 15h54

As tradings e empresas exportadoras que têm estrutura consolidada no Porto de Santos são taxativas ao dizer que os investimentos no maior complexo do Centro-Sul são permanentes mesmo com novos canais de escoamento ganhando espaço e atraindo sua atenção. Pela proximidade com a região produtora de grãos e os avanços logísticos implementados nos últimos anos, o terminal santista é estratégico. Tanto que a questão ambiental, hoje um calcanhar de Aquiles especialmente para as empresas que estão na área da Ponta da Praia, tomada nos últimos anos por empreendimentos imobiliários, está sendo atacada nos projetos e investimentos em curso.

A Archer Daniels Midland (ADM), por exemplo, que está investindo R$ 280 milhões para elevar a capacidade de exportação e de armazenamento no porto, tem uma preocupação maior: reduzir em até 80% as emissões de particulados. "Quando nós entramos aqui, em 1997, não tinha nenhum desses prédios", diz Eduardo Rodrigues, diretor de logística da ADM, apontando para o redor. "A cidade grudou no porto", afirma, em entrevista exclusiva para o Broadcast Agro, serviço de notícias do agronegócio em tempo real da Agência Estado. Para minimizar o problema, a ADM substituirá o atual shiploader (que leva a mercadoria até a embarcação) por um de tecnologia avançada, e instalará um segundo shiploader no terminal. Na ponta dos dois equipamentos, um tubo despejará em cascata a soja diretamente no fundo do porão do navio para evitar que o pó se espalhe pelo ar, e sugadores absorverão a poeira sobressalente.

A Caramuru, multada no início do ano pelo excesso de partículas geradas pela movimentação de grãos, está adaptando suas instalações para atender determinações da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), que chegou a interditar as instalações da trading por duas semanas. Para amenizar o problema, a empresa de exportação e logística está misturando água e óleo ao pó gerado durante o carregamento dos navios e reduziu a quantidade embarcada diariamente. Na avaliação da empresa, foi o preço a pagar para diminuir o incômodo sem interromper a operação. Já a Rumo Logística, mesmo fora da área da Ponta da Praia, investiu em inovações capazes de reduzir o cheiro e a poeira decorrentes da movimentação da oleaginosa. "A gente firmou um compromisso com a Cetesb nos últimos três anos e instalamos despoeiramentos em 100% das nossas moegas rodoferroviárias. Também instalamos supressor de pó no bico dos três shiploaders", contou o diretor de portos e terminais da empresa, Fabricio Degani.

Com essas adaptações, as empresas acreditam que a convivência com a população ao redor será mais amigável e os planos de expansão poderão ser tocados sem interrupções. No caso da ADM, que tem operação nos principais portos brasileiros, o foco agora é ampliar até 2017 sua capacidade de escoamento anual por Santos para 8 milhões de toneladas, das atuais 6 milhões de toneladas, e a capacidade estática de armazenamento de 165 mil toneladas para 192 mil toneladas. Pelo terminal santista, que representa 60% da movimentação da ADM no País, a trading escoa cargas originadas na região abaixo do paralelo 16, que passa próximo ao município de Lucas do Rio Verde (MT). Grãos produzidos acima deste paralelo são em grande parte enviados para portos do Norte.

Da carga total movimentada hoje pela ADM em Santos, 60% chegam por ferrovia. O restante vem por caminhões. A empresa negocia com a empresa de logística Rumo investimento para aumentar o espaço de recepção de vagões de grãos no terminal. Quando a reportagem do Broadcast Agro esteve no local foi possível observar que o plano envolve uma mudança de layout - uma área por onde passam caminhões e vagões receberá só vagões. "Poderemos aumentar a participação do modal ferroviário no total de carga recebida." A ideia é construir novas e maiores estruturas para recebimento dos produtos (moegas). "Esperamos ter até o início de julho um projeto executivo e aí veremos o valor exato do investimento para correr atrás de aprovações", contou Eduardo Rodrigues.

A Caramuru também concentra em Santos sua principal operação de grãos e farelos, mas tem planos de escoar proteína concentrada pelo Norte do País a partir deste ano. "De Itumbiara, São Simão e Ipameri (municípios em Goiás onde a empresa tem operações de originação e processamento), a distância para o Porto de Santos é menor", frisou Cesar Borges, vice-presidente da empresa. No porto santista, a Caramuru e a Rumo têm uma parceria na operação do terminal conhecido como 39, onde a capacidade de armazenagem é de 135 mil toneladas de grãos e/ou farelo.

Neste ano, o desafio da Caramuru é retomar a operação integrada com a Hidrovia Tietê-Paraná. Paralisada em maio de 2014, a hidrovia voltou a operar há dois meses. No caso da Caramuru, os produtos agrícolas são transportados pela hidrovia até o município paulista de Pederneiras, de onde seguem por ferrovia para Santos. "Como ficamos 22 meses sem operar neste trecho, é razoável que a empresa de transporte ferroviário procurasse outras cargas para operar", contou. A Caramuru tem tentado, disse ele, recuperar o espaço com o que contava nos trens para levar produtos até Santos.

Durante a paralisação da hidrovia, 100% da carga que a Caramuru transportava por rios passou a ser levada por caminhões, com custo 30% mais alto. Em abril, durante visita do Broadcast Agro ao terminal em Santos, 80% da carga que chegava diariamente ao local vinha por meio da combinação hidrovia-ferrovia e 20% por rodovia. Nem todo o volume, porém, era da Caramuru, pois outras tradings também exportam pelo terminal 39. Reativado o modal, a Caramuru prevê movimentar até 1,1 milhão de toneladas este ano pela Tietê-Paraná, ante 127.950 toneladas há dois anos.

Já a proteína concentrada de soja produzida em Sorriso (MT), hoje escoada por Santos, passará a ser levada pela hidrovia do rio Tapajós, passando pelo Pará, até o Porto de Santana (AP), de onde seguirá para a Europa. "Percorreremos 400 km a menos do que se levássemos para Santos e teremos economia de dois dias no deslocamento do navio até a Europa", afirmou Borges.

A Rumo, braço de logística da Cosan e que vinha trabalhando para conciliar embarques de grãos e açúcar em Santos, pretende trabalhar em melhorias para ganhar competitividade. Uma delas será cobrir um dos berços de atracação. Como historicamente as operações do porto são interrompidas por mais de 90 dias todos os anos por causa do clima, a cobertura permitiria o carregamento de navios em dias chuvosos, uma vantagem importante sobre outros terminais, diz o diretor de portos e terminais da empresa, Fabricio Degani, que não revelou o valor do investimento. A obra deve durar até 24 meses.

Há planos, também, de modificar a linha férrea a fim de deixar de "desengatar" vagões da locomotiva para descarregar os produtos nas moegas da empresa, o que agilizaria o processo. A obra necessária para tanto, porém, não tem data definida. Além disso, a Rumo começou a utilizar em março um novo silo de 100 mil toneladas, erguido no lugar de um antigo, de 15 mil toneladas. A movimentação de grãos pela empresa, que teve início em 2015, já vinha sendo feita em caráter experimental antes da fusão com a ALL, a fim de aproveitar a capacidade instalada nos anos em que a produção de açúcar era reduzida. De lá para cá, porém, os grãos deixaram de ser complemento da operação, conta Degani, e estão presentes todos os meses no terminal, junto com o açúcar. "Os produtos têm rotas, armazéns e moegas bem distintas. Então conseguimos nos programar", afirma Degani. Além de soja e milho de terceiros, a Rumo exporta ainda o açúcar produzido pela Raízen, pertencente ao mesmo grupo, e presta este serviço para outras empresas.

De 2010 para 2015, a capacidade de exportação dos dois terminais da empresa no porto saltou de 7,5 milhões para 11,7 milhões de toneladas, considerando todos os graneis, e deve chegar a 14 milhões de toneladas este ano. Cerca de 60% do açúcar exportado por Santos passa pela estrutura da Rumo. Quanto aos grãos, foram exportados 2 milhões de toneladas de soja e milho em 2015 e a previsão é superar 3 milhões de toneladas em 2016.

Exigência ambiental 

O gerente da Agência Ambiental de Santos, ligada à Cetesb, Enedir Rodrigues, disse ao Broadcast que, após as multas e interdições, a principal exigência do órgão junto às empresas tem sido a de que instalem em seus terminais um shiploader mais eficiente no controle da emissão de poluentes no ar. Em fevereiro, a agência exigiu das empresas multadas ou interditadas que os novos equipamentos fossem instalados em 18 meses.

Até que o processo seja concluído, a Cetesb proíbe o uso do equipamento "bico de pato" para acomodar a carga no porão do navio e a formação de pilhas de grãos acima das bordas superiores do porão, além de pedir limpeza permanente do convés do navio. Segundo Rodrigues, a situação tende a melhorar porque agora os terminais são obrigados a fazer licenciamento ambiental, algo não exigido anteriormente.

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