Exportadores e Itamaraty apostam no Mercosul

A reunião extraordinária de cúpula do Mercosul, na próxima segunda-feira em Buenos Aires, deve servir como uma espécie de "ponta pé" inicial para fazer renascer o bloco regional, que entrou em processo de desgaste a partir da desvalorização do real, em janeiro de 1999, e se aproximou da desintegração com o recrudescimento da crise econômica argentina. Essa é a visão de alguns setores brasileiros de exportação sobre o encontro de presidentes do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, além dos da Bolívia e Chile e do próprio Itamaraty."Tenho certeza de que algo muito positivo surgirá dessa reunião", disse Michel Alaby, presidente da Associação de Empresas Brasileiras para a Integração de Mercados (Adebim). Para Alaby, um dos pontos em destaque no encontro deverá ser a discussão sobre o regime automotivo e, provavelmente, o anúncio de algumas medidas que possibilitem à Argentina sair da crise na qual mergulhou há mais de três anos.Para o embaixador José Alfredo Graça Lima, subsecretário geral de Assuntos de Integração, Econômicos e de Comércio Exterior, do Itamaraty, dois aspectos, considerados fundamentais por ele, mostram que o Mercosul conseguirá retomar o rumo que até agora parecia nebuloso. Um, disse ele à Agência Estado, refere-se à passagem do regime argentino de conversibilidade para o de livre flutuação do câmbio. "Isto já é um fato que vai facilitar chegar à meta de coordenação macroeconômica e, eventualmente, à criação de uma moeda comum", afirmou o embaixador, por telefone de Brasília.O segundo aspecto, também fundamental para o avanço do bloco segundo Graça Lima, refere-se à área comercial. "Este segundo ponto é um desafio para o Mercosul, já que ele atua como mecanismo de desenvolvimento, mas, por outro lado, exige o aumento de produção e a busca de mercados." De acordo com o embaixador, o Brasil está disposto a abrir seu mercado para ajudar a Argentina sair da crise. Mas é importante também que haja uma contrapartida por parte de seu principal parceiro no bloco.TEC"Uma eventual redução da Tarifa Externa Comum (TEC) me parece um risco, já que isso poderia provocar uma triangulação que prejudicaria o Brasil. Mas, se for ela for aplicada para determinados setores em que o Brasil e os outros parceiros do bloco não têm condições de fornecimento, me parece uma boa idéia", afirmou o executivo da Adebim.Alaby acredita ainda que a eventual flexibilização da TEC, por um período determinado, poderia vir acompanhada de uma linha de crédito do BNDES para a aquisição de bens de capital brasileiros. "Acho que o Brasil tem condições de fornecer máquinas e equipamentos com preços e qualidade competitivos. Por isso, não acho necessário reduzir a TEC (para terceiros países) para bens de capital", acrescentou Alaby. Para ele, o Brasil poderia ainda ampliar a importação de petróleo da Argentina, que passou para terceiro fornecedor depois de ter ficado na liderança por muitos anos.Alaby explicou que o setor exportador tem reagido bem às medidas econômicas de seu principal parceiro no Mercosul. "Em um primeiro momento pensei que o câmbio iria explodir. Mas o plano argentino tem fundamentos que permitem pensar em uma taxa entre 2 pesos e 2,50 pesos por dólar, semelhante ao câmbio aqui no Brasil", afirmou. De acordo com ele, se o dólar se mantiver nesse patamar, em um ano ou um pouco mais o Mercosul poderá começar a pensar em uma verdadeira harmonização macroeconômica.De acordo com o presidente da Adebim, as exportações brasileiras para a Argentina este ano devem ficar abaixo dos US$ 5 bilhões registrados em 2001. "essa queda não será provocada apenas pela recessão argentina, mas também por causa da forte queda dos preços de produtos argentinos dentro de seu próprio mercado com a desvalorização do peso", afirmou.

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