Exportar não é tudo

Sim, é isso mesmo. Não adianta apenas aumentar as exportações de commodities. Não há nada de errado nisso, o que está errado é exportar mais produtos primários e menos industrializados, e até mesmo importá-los, em detrimento da indústria nacional.

ALBERTO TAMER, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

Petróleo e minério estão na natureza. É investir em pesquisa para descobrir e depois explorar, com baixíssimo custo de mão de obra. Alimentos são plantados, colhidos, transportados, armazenados ou exportados e pronto. É o que os economistas chamam de "pouco valor agregado". Plantar soja ou milho não é como fabricar um carro. Pouca gente produzindo muito.

Crescendo? Sim. É este o caso do Brasil. Costuma-se dizer que, afinal, não estamos tão mal assim. Nossas exportações estão crescendo mais que a média mundial. Só não se diz que quase tudo são commodities. Mais grave, commodities concentradas em minério de ferro e alimentos.

Não é novidade? Sei que isso tudo não é novidade, mas é uma "novidade velha". Velha sim, porque há anos sabemos que o Brasil está perdendo espaço no mercado mundial de produtos industriais, mas parece que o governo se contenta em equilibrar a balança comercial com a venda de produtos básicos, principalmente agora que os preços estão altos. Cito apenas um caso. Entre janeiro e setembro, só as exportações de minério de ferro representaram 13,2% do total. E continuam crescendo, acompanhadas pelo petróleo, para atender à voracidade chinesa. Enquanto isso, continuamos importando, cada vez mais, produtos industrializados.

Desindustrialização. Esse e não é só um fenômeno brasileiro, é de toda a América Latina que está desindustrializando as exportações, concentradas em meia dúzia de produtos primários. Jamil Chade, correspondente do Estado em Genebra, revela recente estudo da Organização Mundial do Comércio, mostrando uma distorção que é o caminho aberto para o atraso.

Em 2000, cerca de 37% das exportações latino-americanas eram de bens industrializados. Hoje, são apenas 27%. A China abocanhou tudo. Há dez anos, o país representava apenas 5% do mercado mundial desses produtos. No ano passado, 13%. Nada menos que US$ 1,1 trilhão, informa a OMC. Supera os Estados Unidos.

Entre 2000 e 2009, o valor das exportações mundiais de industrializados aumentou 8% por ano; na América Latina, apenas 6%. Foram substituídas pela venda de commodities agrícolas e minérios, que cresceram 11% no período, por causa da demanda chinesa. Hoje representam 30% das exportações latino-americanas. Ou seja, a China está desalojando o Brasil e os países latino-americanos do mercado industrial e importando deles matéria-prima que industrializa e vende a preços competitivos.

Brasil se marginaliza. Jamil Chade teve acesso a estudo da Universidade de Boston no qual se constata que oito em cada dez produtos industrializados brasileiros enfrentam a concorrência direta da China. Em 2009, cerca de 84% das exportações brasileiras de bens industrializados já foram de alguma forma afetadas pela concorrência chinesa. Na prática, isso significa que 28% de todas as vendas ao exterior hoje são ameaçadas pela competitividade chinesa.

Há 25 anos, o Brasil tinha participação no mercado de bens manufaturados que ultrapassava em grande medida a presença chinesa. Segundo o levantamento, em 1985, o Brasil representava 1,1% do mercado mundial desse setor. Isso o situava no 16.º lugar. Naquele ano, a China estava na 26.ª posição, representando apenas 0,4% das exportações mundiais de produtos industrializados.

No ano passado, o Brasil despencou para o 24.º lugar, com 0,7% das compras mundiais desses produtos. É este o cenário, é esta a novidade velha de distorções que se repetem, à espera de uma ação unificada, numa eterna esperança que se adia.

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