Extinção da CPMF assusta investidor e Ibovespa perde 2,9%

Alguns analistas temem deterioração da política fiscal, embora Mantega garanta que contas ?seguirão equilibradas?

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

14 de dezembro de 2007 | 00h00

O temor de uma deterioração das contas públicas brasileiras, em decorrência do fim da cobrança da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), assustou muitos investidores ontem e derrubou o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa). O indicador recuou 2,9%. O impacto maior da derrota do governo no Senado, porém, se deu no mercado de juros. A taxa projetada para janeiro de 2009 subiu de 11,82% ao ano quarta-feira para 12,02% ontem. A expectativa para a Selic em janeiro de 2010 passou de 12,44% para 12,73%. No mercado cambial, o efeito foi moderado. O dólar avançou 0,56%, para R$ 1,783. O risco Brasil, medido pelo banco JP Morgan, caiu 3,74%, para 206 pontos. "O receio de uma política fiscal mais frouxa, que estimule a demanda e leve mais tempo para reduzir a dívida pública em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) muda as expectativas do cenário para o juro", explicou Roberto Padovani, economista do banco WestLB. "Nos outros mercados, a reação inicial negativa se diluiu ao longo do dia por causa da percepção de que não haverá grandes mudanças na política econômica no médio e longo prazos."Segundo Alexandre Lintz, estrategista do banco BNP Paribas, a forte queda do Ibovespa se deveu à expectativa de que o governo terá de compensar a perda da CPMF com um programa menos agressivo de desoneração tributária para as empresas. "Com isso, os investidores tiveram de recalcular o fluxo de caixa das companhias", disse. Apesar das preocupações de muitos investidores, Lintz observou que o "baque (da perda da CPMF) não foi tão ruim". "A DRU (Desvinculação de Receitas da União, que libera dinheiro para o superávit primário) foi aprovada e o governo, na prática, não terá de cortar tanto gasto, apenas diminuir o ritmo de crescimento das despesas." Outro fator que, segundo Lintz, acalmou um pouco os analistas, foi a entrevista do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Ele garantiu que "as contas públicas seguirão equilibradas". Na avaliação dos analistas, o foco agora está voltado para as medidas que o governo anunciará na próxima semana para compensar a perda de arrecadação com a CPMF (R$ 40 bilhões, o equivalente a 1,5% do PIB). "Uma eventual redução do superávit primário para menos de 3% do PIB seria muito ruim", exemplificou Padovani. A meta para 2008 é de 3,8% do PIB. De outro lado, disse o economista, "seria muito bom se o governo aproveitasse o momento para se comprometer com reformas que reduzam as despesas públicas, como a da Previdência". Para Lintz, medidas populistas, como a adoção de impostos sobre setores que têm apresentado alta lucratividade, seriam malvistas pelos investidores. Além da sessão no Senado, os boatos sobre uma eventual demissão de Mantega agitaram as mesas de operações ontem. "Dificilmente o presidente Lula tomaria uma atitude tão boa", disse um analista que pediu para não ser identificado.

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