Exxon pode tornar-se operadora da maior reserva de petróleo do País

Bloco na Bacia de Santos pode garantir à empresa americana uma produção estimada em pelo menos US$ 200 bilhões

Nicola Pamplona, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

Embora nunca tenha figurado entre as prioridades da gigante americana ExxonMobil no Brasil, a Bacia de Santos pode garantir à empresa o título de operadora da maior reserva brasileira de petróleo, estimada pelo mercado em pelo menos US$ 200 bilhões. A conquista se deu quase por acaso e pode esquentar o debate sobre o modelo regulatório do setor, que garante a companhias privadas a propriedade da produção de petróleo no País.O bloco BM-S-22, onde a Exxon perfurou um poço batizado de Azulão, é tido por especialistas como o de maior potencial na área do pré-sal na Bacia de Santos. Estimativas conservadoras falam em reservas entre 5 bilhões e 10 bilhões de barris - em Tupi, a Petrobrás confirmou ter encontrado entre 5 bilhões e 8 bilhões. Com petróleo na casa dos US$ 40, o valor da jazida de Azulão, se confirmada, pode variar entre US$ 200 bilhões e US$ 400 bilhões.A Exxon é operadora do bloco, com 40%, mas deve seu sucesso à ousadia das compatriotas Amerada Hess e Ocean Energy, que jogaram pesado na Terceira Rodada de Licitações da Agência Nacional do Petróleo (ANP), vencendo a Petrobrás na disputa, em junho de 2001. Temendo sair de mãos vazias, a Hess ofereceu um bônus de R$ 59 milhões, batendo, de longe, a proposta de R$ 1,2 milhão da estatal.No mesmo ano, a Exxon despediu-se dos leilões da ANP, arrematando duas áreas na Bacia do Espírito Santo, então a vedete do mercado brasileiro de petróleo. A aposta foi errada e as concessões foram devolvidas à ANP. Mesmo destino teve a primeira área em que a empresa atuou no Brasil, na Bacia da Foz do Amazonas, ainda no período de parcerias com a Petrobrás."A exploração de óleo e gás é um negócio de alto risco e várias tentativas de encontrar recursos de hidrocarbonetos recuperáveis em quantidades comerciais não são bem sucedidas", comenta, em e-mail enviado ao Estado, a companhia, que no Brasil operava a rede de postos Esso, vendida no ano passado à Cosan. "Apesar disso, a Esso perseguiu várias oportunidades de exploração no Brasil."A oportunidade mais promissora, porém, lhe foi apresentada por uma companhia com valor de mercado 10 vezes menor, que buscou parceiros com robustez suficiente para perfurar o pré-sal. Em 2004, após comprar a Ocean, a também americana Devon decidiu vender sua fatia de 20% no BM-S-22 para centrar esforços nas outras concessões no País. A Hess, então, foi ao mercado oferecer o projeto, em um processo conhecido no mercado como farm out. Repassou parte à Exxon e 20% à Petrobrás - trata-se da única área do pré-sal da Bacia de Santos onde a estatal é minoritária. As companhias não revelam o valor da operação, mas é comum que os novos parceiros se comprometam com os investimentos iniciais em exploração. Nesse caso, especula-se que Exxon e Petrobrás financiaram a primeira sísmica 3D, uma espécie de ultrassonografia do subsolo, na área. O trabalho, feito em 2005, tem custo estimado por especialistas entre US$ 20 milhões e US$ 40 milhões.Gente que teve acesso aos resultados da sísmica diz que o potencial do BM-S-22 é bem superior ao de Tupi. O bloco abrange a maior parte da estrutura geológica batizada inicialmente de Pão de Açúcar, que pode estender-se por concessões da Petrobrás - onde foram descobertos os campos Carioca e Caramba - e por áreas ainda não concedidas, pertencentes à União. Se confirmada a extensão do reservatório, Exxon, Petrobrás, demais sócios e a União terão de negociar um acordo de produção, chamado de "unitização", segundo o qual cada consórcio fica com parcela da produção equivalente à participação na reserva total. A definição de um novo modelo regulatório é fundamental para que esse processo seja levado adiante.De qualquer forma, ainda há tempo para os trabalhos legislativos. A Exxon prevê a perfuração de mais um ou dois poços na área, para delimitar as reservas. Especialistas preveem o início da produção no BM-S-22, caso o campo seja comercialmente viável, apenas para meados da próxima década.Mesmo assim, a possibilidade de uma empresa estrangeira dominar parcela significativa do pré-sal já é suficiente para acirrar os ânimos dos defensores de mudanças no setor. "Consultamos advogados e sabemos que é muito difícil mexer no que já foi licitado, mas esperamos que esse anúncio seja levado em consideração pelo Congresso, quando for avaliar a revisão da Lei do Petróleo", diz o secretário da presidência da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Paulo César Martim.A federação coordena um grupo de entidades de classe, que inclui o Movimento dos Sem Terra (MST), em uma mobilização pela volta do monopólio estatal. No momento, estão colhendo assinaturas para enviar ao Congresso um projeto sobre o tema. "O petróleo produzido por essas empresas nem passa pelo continente, vai direto da plataforma para o exterior. Já a Petrobrás é motor do desenvolvimento brasileiro."A Exxon diz que não comenta assuntos internos dos países onde atua. De todo modo, o risco de quebra de contratos é mínimo. "Esse vem sendo o comportamento do governo Lula, que tem dito que qualquer mudança será para o futuro", diz o embaixador Sebastião do Rego Barros, ex-diretor da ANP.

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