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Alívio esperado com a queda na cotação do dólar ante o real brasileiro ainda não se faz sentir

Comportamento do dólar será crucial para amenizar a pressão nas cotações das commodities e reduzir os preços de bens

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2022 | 04h00

Depois da grande surpresa em março, quando o IPCA atingiu a maior taxa para o mês desde 1994, ano do lançamento do Plano Real, a inflação ao consumidor terá no curto prazo mais uma pressão adversa: os preços no atacado voltaram a ter um forte repique e o alívio esperado com a queda na cotação do dólar ante o real brasileiro ainda não se faz sentir.

Os últimos índices de preços no atacado acenderam o sinal amarelo. Em março, o IGP-DI subiu 2,37%, após alta de 1,50% em fevereiro. Já a primeira prévia de abril do IGP-M acelerou 1,88%, após ter ficado estável (0%) no mesmo período de março. No caso dos preços ao produtor do IGP-M, o IPA-M passou de deflação de 0,10% na primeira prévia de março para alta de 2,04% em abril. 

A pressão ainda está vindo dos preços de produtos industriais, como eletrodomésticos e automóveis, em razão do aumento nos custos de combustíveis e de outras matérias-primas.

Nesse contexto, o comportamento do dólar será crucial para amenizar a pressão nas cotações das commodities e reduzir os preços de bens. Nos últimos 30 dias, o dólar já caiu cerca de 8% em relação ao real, levando a perda acumulada em 2022 para mais de 16%.

Nos cálculos da economista-chefe do Credit Suisse Brasil, Solange Srour, o repasse cambial é de 8%, ou seja, uma valorização de 10% do câmbio resultaria numa redução de 0,80 ponto porcentual em 12 meses no IPCA. Segundo Srour, a taxa de equilíbrio do câmbio está ao redor de R$ 4,60, levando-se em conta os preços das commodities e o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos. Esse cenário poderia reduzir a inflação de 2023, que é hoje o foco do Banco Central. Srour projeta inflação de 7,8% em 2022 e de 4,3% em 2023.

“Não basta o câmbio apreciar: é preciso que este movimento seja também visto como algo mais persistente para afetar os preços e as expectativas”, diz Srour. “Neste momento, com o Federal Reserve dando sinais de que pode levar os juros americanos para um nível mais restritivo, não vemos esse risco (de apreciação cambial) como algo que compense nossa visão assimétrica para a inflação: alta inercial, inflação global, expectativas desancoradas e choques de commodities que levam tempo para ser transmitidos em todas as cadeias.”

A taxa anual do IPCA foi de 11,30% em março. Com o repique nos preços do atacado, não somente o pico da inflação anual ao consumidor poderá ser maior, como também o processo de desaceleração do índice para abaixo de dois dígitos será bem mais lento, o que, num círculo vicioso, poderá contaminar as expectativas. 

*COLUNISTA DO BROADCAST 

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