Dida Sampaio/Estadão
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Fábio Alves
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Estrutura da economia brasileira força o BC a ter de lidar energicamente com inflação acima de 10%

Recente disparada na inflação é resultado de sucessão de choques de oferta nunca antes vistos, como fenômenos climáticos adversos, escassez de insumos e a guerra na Ucrânia

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2022 | 04h00

Quase todos os analistas estão prevendo que a inflação acumulada em 12 meses irá permanecer em dois dígitos até agosto, resultando em um ano inteiro em que o IPCA mensal ficará em 10% ou mais nos 12 meses anteriores, o que deflagra o temor de que a memória inflacionária volte a criar raízes mais profundas.

Isso porque, se confirmadas essas projeções, esse será o mais longo platô em dois dígitos do índice de preços ao consumidor desde o período de novembro de 2002 até novembro de 2003. Lá atrás, o IPCA em 12 meses atingiu o pico de 17,24% em maio de 2003, durante o primeiro ano de mandato do então presidente Lula.

Na ocasião, o Banco Central foi obrigado a elevar os juros até 26,50% para tentar quebrar aquela escalada de preços. Mas o BC teve ajuda importante nessa tarefa: a política fiscal foi bastante contracionista, contribuindo ainda mais para conter a demanda. Em 2003, por exemplo, o governo conseguiu obter um superávit fiscal primário de 4,25% do PIB.

A recente disparada na inflação, por outro lado, é resultado de uma sucessão de choques de oferta nunca antes vistos: fenômenos climáticos adversos; gargalos nas cadeias mundiais de produção em razão da pandemia de covid, levando a escassez de insumos; e a guerra na Ucrânia, gerando uma disparada nos preços de commodities agrícolas e de energia.

Com a alta de combustíveis e de alimentos, a inflação em dois dígitos atingiu fortemente as classes de renda mais baixa na sociedade brasileira. Também os preços de bens industriais, em razão da escassez de matérias-primas essenciais para a manufatura, dispararam e afetaram o consumidor.

O argumento de muitos analistas é que, ao contrário de 2003, o BC não deveria subir tão mais a taxa Selic, hoje em 12,75%, uma vez que a política monetária não deveria combater com juros o impacto primário dos choques de oferta.

Mas, com a reabertura da economia, faxineiras, dentistas, cabeleireiros e outros profissionais estão reajustando o quanto cobram por seus serviços, pressionados pelo custo de vida mais alto. Ou seja, além dos preços de produtos, a classe média também vem tendo de lidar com reajustes de serviços, em alguns casos, em torno de dois dígitos.

A pressão inflacionária atual tem como pano de fundo um choque de oferta, mas a estrutura da economia brasileira, com a indexação de salários e de vários preços, como aluguéis, força o BC a ter de lidar mais energicamente com o platô da inflação acima de 10% por muito tempo. E põe em dúvida se o fim da alta de juros acontecerá em junho ou em agosto.  

*COLUNISTA DO BROADCAST 

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