Sergei Karpukhin/Reuters - 25/3/2015
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Fábio Alves
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Banco Central tem de priorizar o efeito do choque de oferta sobre a inflação

Forte aumento nos custos de energia e de alimentos significa que o processo de desinflação vai ser bem mais lento do que o BC imaginava

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2022 | 04h00

Um dos impactos econômicos da invasão da Ucrânia pela Rússia foi o de causar um choque adverso de oferta de grande intensidade, com a disparada nos custos de matérias-primas e insumos, como petróleo e gás natural, trigo e outros grãos, além de fertilizantes.

Como no resto do mundo, o Brasil vai enfrentar novamente neste ano forte elevação nos preços de alimentos, repetindo o que aconteceu em 2021. É cada vez mais provável, portanto, que a inflação de 2022 supere 6%, bem acima do teto da meta deste ano, de 5%. E também que, para 2023, as projeções de analistas comecem a migrar em direção a um IPCA de 4%, enquanto a meta é de 3,25%.

O forte aumento nos custos de energia e de alimentos, num momento em que a inflação de serviços começa a subir, significa que o processo de desinflação vai ser bem mais lento do que o Banco Central imaginava. Em outras palavras: a taxa anual do IPCA vai ficar por mais meses ao redor de 10%. Isso é um problema numa economia com mecanismos de indexação praticamente automáticos.

Com uma inflação rodando em dois dígitos por mais tempo, a cada mês, rodadas de negociações salariais de diferentes categorias profissionais resultam em dissídios refletindo esse patamar de preços nos 12 meses anteriores. Ou seja, o repasse maior aos preços e salários dificulta a inflação ceder em direção à meta. E as expectativas de inflação de curto e médio prazos pioram.

Tradicionalmente, os bancos centrais não reagem a choques de oferta, mas apenas aos seus efeitos secundários aos preços, justamente porque eles aumentam o risco de pressionar as expectativas inflacionárias e, por tabela, levar a uma espiral nos salários, entre outros custos. Muitos analistas advertem que o choque de oferta em curso terá também um impacto recessivo, reduzindo a renda disponível dos consumidores via preços de combustíveis mais caros.

Alguns dirigentes do Banco Central Europeu (BCE), por exemplo, já se mostram receosos em retirar os estímulos monetários atuais com medo de uma recessão na zona do euro por causa das sanções à Rússia pelo conflito na Ucrânia. Nos Estados Unidos, a aposta de alta de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) chegou a 0,50 ponto porcentual, mas foram revisadas para 0,25 ponto, muito em razão do impacto econômico da guerra.

Todavia, as expectativas de inflação estão relativamente ancoradas na Europa e nos EUA. Esse não é o caso do Brasil. Assim, o BC, por aqui, terá de priorizar o efeito sobre a inflação, mais do que sobre a economia, desse choque de oferta. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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