Carlos Garcia Rawlins/Reuters - 24/05/2022
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Fábio Alves
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Estímulos prometidos por autoridades da China podem ir por água abaixo pela política de 'covid zero'

Última onda de novos casos da variante Ômicron levou a severas medidas de restrição de mobilidade, com a imposição de lockdowns às mais importantes regiões da economia

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2022 | 04h00

Os indicadores de atividade econômica da China de abril foram tão ruins que houve analista falando até em “colapso” do segundo maior PIB mundial, deixando no ar a dúvida se os dados do mês passado são apenas um ponto fora da curva ou um prenúncio de uma desaceleração bem mais forte do que a prevista pelo mercado ou pelo governo chinês.

Maior comprador mundial de commodities, como petróleo, minério de ferro e soja, a China tem uma influência crucial no desempenho da balança comercial brasileira. Nesta semana, a imprensa chinesa divulgou que o governo está preparando um pacote de 33 medidas para estimular a economia, incluindo corte de impostos no valor de US$ 21 bilhões, além de empréstimos às pequenas empresas. 

Será suficiente diante da piora acentuada dos dados de atividade em abril? As vendas no varejo caíram 11,1% em comparação com igual mês de 2021. Os analistas esperavam queda de apenas 5,4%. A produção industrial recuou 2,9%, enquanto o mercado previa um crescimento de 1%. E as vendas de moradias despencaram 32,2% entre janeiro e abril ante igual período de 2021.

O preocupante é que esses resultados bem abaixo do esperado ainda não se refletem nas projeções da maioria dos analistas para o desempenho do PIB chinês em 2022. Por enquanto, a mediana das estimativas do mercado aponta para um crescimento de 4%, que já é bem abaixo da meta do governo chinês para o PIB deste ano, ao redor de 5,5%.

Para entregar essa meta, as autoridades chinesas já começaram a agir, embora timidamente. O Banco do Povo da China (PBoC, o BC chinês) reduziu a taxa de juros de referência para empréstimos de cinco anos ou mais, de 4,60% para 4,45%, numa tentativa de estimular financiamentos imobiliários e aquecer a compra de moradias.

É pouco. Até porque o PBoC manteve a taxa básica de juros inalterada. O governo chinês precisa abrir os cofres e aumentar o investimento público em projetos de infraestrutura, por exemplo.

Mas todo esse estímulo prometido pode ir por água abaixo em razão da política de “covid zero” em vigor. A última onda de novos casos da variante Ômicron levou a severas medidas de restrição de mobilidade, com a imposição de lockdowns às mais importantes regiões da economia.

De que adianta cortar juros ou impostos se as pessoas não podem comprar moradias, bens duráveis ou serviços por estarem confinadas em casa? Enquanto a política de “covid zero” seguir como está em vigor, a demanda chinesa nunca irá se recuperar totalmente porque novos surtos levarão a lockdowns, afetando a economia.  

*COLUNISTA DO BROADCAST 

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