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Japoneses aposentados voltam a investir no real, mas podem sair a qualquer momento

Conhecidos como 'Sra. Watanabe' no jargão financeiro, esses investidores buscam retornos elevados em aplicações em moedas de países cujas taxas de juros são bem mais elevadas do do Japão

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2022 | 04h00

O real é uma das moedas que mais se valorizaram no mundo em relação ao dólar até agora em 2022, mas o câmbio no Brasil vem ganhando, recentemente, um impulso adicional de uma velha conhecida: a “Sra. Watanabe”, como são chamados, no jargão financeiro, os investidores de varejo do Japão, na maior parte aposentados ou com mais de 50 anos de idade.

Esses investidores não raro fazem aplicações online de casa, pelo computador, mas chegam a representar até 30% do giro diário total da moeda japonesa, o iene. A “Sra. Watanabe”, todavia, é volátil: sempre em busca de retornos elevados das aplicações em moedas de países cujas taxas de juros são bem mais elevadas do que as praticadas no Japão.

É exatamente esse o fluxo de capital que vem proporcionando os ganhos do real brasileiro ante as principais moedas internacionais, como o dólar, o euro e, em particular, o iene. São as chamadas operações de “carry trade”, quando investidores tomam dinheiro emprestado em moedas “baratas”, onde os juros são baixos, para aplicar em ativos de países com taxas maiores.

No Japão, a taxa básica de juros ronda 0%, e o Banco Central japonês está na traseira entre os BCs de países desenvolvidos em retirar os estímulos monetários injetados durante a pandemia de covid, ou seja, os juros por lá seguirão baixos por muito mais tempo. Com isso, o iene vem sofrendo fortes perdas diante do dólar e de outras moedas, principalmente o real. No Brasil, o BC já sinalizou que a Selic deverá subir para 12,75% em maio.

Em março, até a segunda-feira, o iene registrava queda de 14% em relação ao real, levando a perda acumulada deste ano para 20,3%. No mesmo período deste mês, o dólar recuava 7,43% ante o real.

Em vários momentos, no passado, o fluxo de recursos vindo da “Sra. Watanabe” sustentou movimentos de valorização do real brasileiro. Mas o objeto de afeto desses investidores pode mudar de uma hora para outra: ao longo de 2012, por exemplo, quando o BC da gestão Dilma Rousseff reduziu a Selic para o menor nível histórico até então, de 7,25%, a “Sra. Watanabe” abandou, sem a menor cerimônia, a moeda brasileira pela lira turca, onde os juros subiam na época.

Um fator importante para a atratividade do “carry trade” é a baixa volatilidade da moeda. Em ano de eleição presidencial, é de se esperar um aumento das oscilações bruscas do real. Porém, esse movimento só deve acontecer a partir do terceiro trimestre, quando a corrida eleitoral por aqui pegar fogo. Até lá, o amor entre o real e a “Sra. Watanabe” tem tudo para continuar. 

* COLUNISTA DO BROADCAST

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