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Um bonde (desgovernado) chamado Bolsonaro

Aprovação da PEC do Orçamento em votação relâmpago na Câmara representa uma derrota forte para o governo Bolsonaro

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2019 | 11h34

No fim da noite de terça-feira, 26, após a derrota acachapante do governo na Câmara dos Deputados com a aprovação da PEC do Orçamento impositivo, um interlocutor desta coluna mandou a seguinte mensagem: "Tenho título para sua coluna de amanhã [hoje]: Alguém anotou a placa do trator?".

Sim, o cenário externo está bem negativo nesta quarta-feira, 27, para o risco, em particular os de países emergentes, mas parte importante do desempenho negativo dos ativos brasileiros na abertura dos negócios desta quarta-feira pode ser atribuída à reação à derrota fragorosa do governo Jair Bolsonaro com a aprovação da PEC do Orçamento em votação relâmpago na Câmara.

A PEC limita o escopo que o governo tem de administrar o Orçamento, tornando obrigatórias, por exemplo, as chamadas emendas coletivas de parlamentares. Caso a PEC seja aprovada também no Senado, o engessamento do Orçamento poderá atingir 97%.

Além desses efeitos, o simbolismo da votação relâmpago em dois turnos na Câmara na noite de terça-feira foi o que marcou os investidores: no primeiro, passou por 448 votos a favor e 3 contra. No segundo, o placar foi de 453 a 6, com votos até do PSL, partido de Jair Bolsonaro.

"O mercado internacional hoje abrindo bem ruim pra mercados emergentes e no Brasil não deve ser diferente", observou um renomado economista brasileiro. Todavia, segundo ele, a derrota na Câmara é revestida de um forte simbolismo e deixou o mercado nervoso.

"Rodrigo Maia deu um cuspe na cara do governo: 90% de apoio numa PEC overnight [de noite para o dia]", argumentou esse economista. "Sendo que a PEC [do Orçamento] estava no mesmo estágio que a reforma da Previdência do Temer, a propósito."

Na opinião de uma economista-chefe de importante instituição do mercado financeiro, a votação de terça-feira representou, sim, uma derrota forte para o governo Bolsonaro.

"Tal PEC estava pronta para ser votada desde 2015 e sempre foi contida pelos governos passados através do controle de sua base congressista", comentou essa economista. "A PEC representa o aumento do poder dos deputados e senadores em relação ao poder executivo."

Para ela, o sinal é que o legislativo manda e não o executivo. "O governo Bolsonaro não se articula para nada, não existe hoje qualquer estrutura para restringir a ação do legislativo", disse ela. "Acho que a reforma da Previdência só passa porque é de interesse do legislativo, mas vai passar mais fraca por culpa do próprio governo."

Qual o sentimento do mercado sobre a situação política do governo?

"Governo fraco e frágil, sem saber articular, sujeito à boa vontade do legislativo e de Rodrigo Maia", afirmou a economista acima.

Na opinião de um diretor de uma grande asset management, localizada na Avenida Brigadeiro Faria Lima, houve uma piora no humor do mercado não propriamente pela PEC do Orçamento em si, mas mais pelo recado que o Congresso está dando ao governo.

"Também o fato de atrasar a nomeação do relator da PEC da reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) deixa o mercado nervoso porque pode atrasar todo o cronograma de tramitação da reforma", disse o executivo.

Já o economista-chefe de um grande fundo de investimentos, quando indagado sobre o seu sentimento em relação à situação política do governo Bolsonaro, respondeu: "Como diria Raul Seixas: Charrete que perdeu o condutor."

De qualquer forma, esse economista acima ressaltou que o Congresso, apesar dos recados recentes, mostra uma boa vontade com Bolsonaro, batendo com luvas de pelica. "Não é que nem Eduardo Cunha versus Dilma [Rousseff]", disse ele. "Parece que o Congresso tem uma boa disposição para votar a Previdência, só precisa o presidente Bolsonaro largar a mão do embate."

E para onde vão os preços do Ibovespa e do dólar no curto prazo diante da confusão política?

"Agora a situação está muito fluida para ter uma resposta para essa pergunta, pois a cada minuto surge uma informação nova que pode mudar totalmente o cenário", explicou o diretor da asset management ouvido mais acima. "Como a Bolsa já caiu e o dólar subiu por conta da confusão política, não dá para achar que vai continuar; mais provável: mercados de lado enquanto esperam novos acontecimentos e depois tomar uma tendência quando a situação melhorar ou piorar."

Ou seja, tudo está em aberto no momento. Mas o fato é que há dias o humor só piora com as trapalhadas políticas do presidente Bolsonaro e de seu entorno mais próximo. Alguém precisa assumir a condução desse bonde. (fabio.alves@estadao.com)

* Fábio Alves é jornalista do Estadão/Broadcast 

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