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Programas de alfabetização financeira falham ao deixar de lado o aspecto comportamental

Todo o conhecimento do mundo não vale nada se a pessoa não mudar o que pensa, os seus hábitos, o que faz e o que determina suas escolhas

Fabio Gallo*, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2022 | 04h00

Há poucos dias, no Jornal Nacional, foi apresentada reportagem sobre os reflexos no bolso das pessoas em virtude do aumento da Selic, que foi para 12,75% ao ano. O principal foco foi a subida dos juros pagos por aqueles endividados no cartão de crédito e no cheque especial. 

Uma das entrevistadas foi uma senhora que se mostra muito eficiente no dia a dia de seu trabalho, controlando documentos e pagamentos da empresa. Mas, na sua vida financeira pessoal, há um descontrole total. Endividada por tomar vários créditos consignados e uso do cartão de crédito, aumentou o endividamento no cheque especial para poder pagar por alimentação e outras contas da casa. 

Quem toma crédito consignado só presta atenção na facilidade e na taxa relativamente mais baixa, mas esquece que, ainda assim, os juros são altos e a prestação é descontada no salário. Muitos de nós temos exemplos similares de pessoas excelentes profissionais, organizadas e boas no controle de gastos e documentos da empresa, mas com finanças pessoais caóticas. Nesses casos não podemos dizer que há falta conhecimento básico de finanças, em alguns casos são pessoas até com grau avançado de conhecimento. 

Por outro lado, todos que lidam com o tema repetem à exaustão que o conhecimento sobre o assunto é uma das bases para aumentar o grau de bem-estar financeiro das famílias. Tanto é que muitas entidades nacionais e internacionais, como FMI, Banco Mundial, Banco Central e FGV, entre outras, mantêm programas, muitos bons e gratuitos, de acesso a finanças pessoais. O fato é que a alfabetização financeira somente pode falhar na sua missão. 

Podem ser observadas várias razões para isso. Uma inicial é que não há definição única sobre alfabetização financeira, não há maneira única de medi-la e processos consistentes que garantam que as pessoas estão adquirindo as habilidades certas. No entanto, os especialistas têm como comum que a falta de educação é a causa de saúde financeira precária, mas muitos não observam que o conhecimento é algo potencial, mas o que se faz com ele é que importa. 

Deve-se buscar mudar o comportamento. Os programas de maneira geral deixam de lado o aspecto comportamental. Todo o conhecimento do mundo não vale nada se a pessoa não mudar o que pensa, os seus hábitos, o que faz e o que determina suas escolhas. 

Um maior grau de bem-estar financeiro será alcançado por decisões mais inteligentes a partir do conjunto de informações sobre todos os aspectos que envolvem as nossas vidas. O desafio é permitir o acesso e a inclusão de maneira que as pessoas possam integrar diferentes saberes e viver da forma desejada.  

*PROFESSOR DE FINANÇAS DA FGV-SP 

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