Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

A privatização não tem a mesma prioridade que outras discussões que iremos ter em 2023

A União tem seis grandes ativos, dos quais dois não faz sentido propor privatizar: Petrobras e BNDES

Fabio Giambiagi*, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2022 | 04h00

Neste terceiro artigo com propostas para 2023/2026, vou abordar a privatização. Este é um ponto da agenda que defendo, mas cabe fazer um esclarecimento para que não haja equívocos associados à ideia de que a privatização “mudaria o País”. Deixemos bem claro: não muda. O tema, portanto, não tem o mesmo grau de prioridade que outras discussões que será necessário encarar em 2023.

A pergunta, então, é: “Se você acha que a privatização não muda o País, por que a defende?”. Pela mesma razão pela qual defendo outras causas: porque penso que é uma agenda que gera um país melhor. Se os Correios forem privatizados, as perspectivas do Brasil mudam dramaticamente? Claro que não. Porém, caro leitor, não pensa que seria melhor termos um sistema de entregas que funcionasse com maior eficiência que o que temos?

Anos de trabalho ligado ao tema, na década de 1990, me deixaram duas convicções. A primeira é que o trabalho técnico de “carregar o piano”, para que a venda seja “blindada” contra a interferência para favorecer A ou B no caminho que conduz aos leilões, é fundamental para dar consistência legal e legitimidade social ao processo. Ele será mais bem recebido pela sociedade se a privatização for percebida por esta como sendo realizada em favor dela mesma e não porque há interesses do partido A ou do grupo econômico B no resultado. 

A segunda convicção é que, se o processo não tiver o apoio do mais alto escalão da República, ele não anda. Se o presidente se empenha, ela é feita. Quando o presidente tergiversa ou se omite, não há privatização.

A União tem seis grandes ativos, dos quais dois não faz sentido propor privatizar: Petrobras e BNDES. No caso do primeiro, no contexto brasileiro o tema politicamente não está em pauta e propor isso é perda de tempo. E, no do segundo, porque “banco de desenvolvimento privado” é um oxímoro. Sobram quatro: Correios, Eletrobras, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil (BB). O que poderá ser proposto em 2023 dependerá do que ocorrer em 2022. E é evidente que, antes de pensar algum dia em privatizar a Caixa, é preciso primeiro vender o Banco do Brasil, cuja atividade hoje pouco se distingue de um banco comercial privado e que, em caso de privatização, não afetaria seriamente nenhuma política pública. A Caixa, portanto, está fora da privatização. Já Correios, Eletrobras e BB poderão estar dentro – se a privatização dos dois primeiros não vingar em 2022.

O resto, realisticamente, é o resto.

*ECONOMISTA

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