Fabio Gonzalez/GM
Um total de 93 robôs foram importados do Japão, e seguem embalados Fabio Gonzalez/GM

Fábrica centenária será uma das mais modernas do grupo, diz GM

Unidade de São Caetano do Sul passa por reformas para iniciar a produção de uma picape global, cuja estreia será no Brasil

Cleide Silva, São Paulo

08 de agosto de 2021 | 05h00

Robôs embalados em plásticos e uma cratera com 96 metros de comprimento, 12 m de largura e sete m de profundidade em meio à linha de montagem da fábrica da General Motors de São Caetano do Sul, no ABC paulista, indicam as mudanças que a fábrica está passando para produzir a nova Montana, picape global totalmente diferente da anterior, retirada de linha há poucos meses.

A empresa aproveitou o momento em que a produção está reduzida por causa da falta de semicondutores para realizar as obras que, de qualquer forma, exigiriam a parada da produção.

São 4 mil metros quadrados de novas instalações que incluem 93 robôs para solda importados do Japão. Eles vão se juntar a outros 658 do setor de funilaria que entraram em operação nos últimos anos, vários deles para a produção do SUV Tracker, iniciada no ano passado.

A principal novidade dessa reforma, uma das maiores na história da fábrica de mais de 90 anos, é a instalação de uma prensa High Speed, a primeira com essa tecnologia nas Américas, informa Michel Malka, diretor executivo da fábrica de São Caetano e de Mogi das Cruzes. “Até agora esse tipo de prensa só está em operação na China”, informa.

O equipamento gigantesco foi desenvolvido pela Schuller alemã em parceria com a filial brasileira. Malka explica que a nova prensa tem capacidade para estampar diariamente 26 mil peças – portas, laterais, capô e tampa traseira. A que está em uso faz 12 mil.

“A nova prensa funciona por acionamento inteligente e, além de maior produtividade, garante mais qualidade e consome 55% menos energia”, informa Malka. Na semana passada ele acompanhou um “tour” da reportagem à linha de produção da fábrica do ABC que esteve fechada à visitas da imprensa nos últimos dois anos. 

A nova prensa será instalada na cratera que foi aberta em área que antes abrigava um armazém de peças e maquinários. O executivo explica que a fábrica de carros, a mais antiga do País, está espremida entre uma linha férrea, um viaduto, um rio e a mais importante avenida da cidade, a Goiás, e não tem como crescer em área, “só para cima ou para baixo”.

Para transformá-la em uma planta que seja competitiva mundialmente, a GM criou um novo conceito que, segundo Malka, será exportado para outras unidades do grupo. “Já existe o greenfield (quando a fábrica começa do zero) e o brownfield (quando a área da fábrica é ampliada) e agora criamos o goldenfield, que é transformar uma planta antiga em uma planta global, dentro das mesmas paredes.”

A linha mais antiga e a mais moderna vão operar em paralelo. A fábrica continuará a produzir o Onix Joy na versão de 2012 na linha antes dividida com a velha Montana. A parte mais moderna fará o Tracker e a nova Montana, que só deverá chegar ao mercado no fim de 2022.

A piape é a grande aposta da GM para enfrentar a Fiat Toro e a Strada, consideradas as principais responsáveis pelo crescimento das vendas da marca que tirou a liderança da GM.

Outra novidade é um carrinho autônomo, chamado de ATU (do inglês Automated Tugger Unit) que puxa vários “vagões” de peças de grande porte em longas distâncias para distribuí-las por toda a fábrica. Ele é diferente dos AGVs (Automated Guide Vehicle), que são pequenos robôs autoguiados que conduzem peças pequenas apenas na linha de produção e já são usados por várias empresas.

Segundo Malka, o autônomo foi desenvolvido a baixo custo pela própria GM brasileira, está em fase de testes e há outras filiais externas do grupo interessadas no projeto.

A reforma deve ser totalmente concluída em um ano. A última grande obra na fábrica de São Caetano havia sido feita em 2012 e 2013, para a produção dos modelos Cobalt, Cruze e Spin, os dois primeiros já fora de linha no País. Na ocasião, também foi aberta uma cratera para a instalação de uma das prensas que opera atualmente.

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GM vê liderança do mercado mais longe após crise do semicondutores

Líder do mercado brasileiro há cinco anos, empresa foi a mais prejudicada pela falta de componentes eletrônicos, suspendeu a produção do campeão de vendas Onix e caiu para a terceira posição na lista

Cleide Silva, São Paulo

08 de agosto de 2021 | 05h00

Após superar seu pior momento no País, quando a matriz sugeriu, no início de 2019, a saída da marca da regiçao se não voltasse ao lucro, a General Motors passa por novo abalo, desta vez envolvendo queda drástica nos negócios. O problema não é a falta de investimentos nem novos produtos, como ocorreu com a Ford, mas a escassez de semicondutores para a produção, o que levou o grupo a manter fechada a fábrica que produz seu campeão de vendas, o Onix, por quase cinco meses.

A planta de Gravataí (RS) volta a operar no dia 16, com apenas um turno de trabalho, e analistas acreditam que não há tempo suficiente para a GM recuperar a fatia de mercado perdida nos últimos meses, até porque não há garantias de que a entrega de chips será regularizada. Ao contrário, a previsão das montadoras é de que a normalização de abastecimento deve ocorrer a partir do primeiro ou segundo trimestre de 2022.

Só a versão hatch do Onix responde por cerca de 40% das vendas da marca, que foi líder do mercado brasileiro nos últimos cinco anos. Sem poder atender a demanda pelo carro até então mais vendido no País, a GM perdeu o pódio de vendas em janeiro e agora está na terceira posição no acumulado do ano, atrás da Fiat e da Volkswagen.

A escassez do item eletrônico tem impactado a indústria automobilística do mundo todo desde o fim de 2020. No Brasil, a maioria das marcas já teve de suspender a produção em vários períodos, mas a GM é a mais afetada.

A empresa alega que a versão atual do Onix tem cerca de mil semicondutores e sistemas integrados, “até o dobro da quantidade encontrada em outros modelos da mesma categoria”. A falta de semicondutores levou também ao fechamento das outras fábricas do grupo, mas por menor período.

Apesar desse quadro, que vai afetar ainda mais seus resultados financeiros, no vermelho desde 2016, a GM está bancando grandes alterações na fábrica de São Caetano do Sul (SP), para iniciar a produção da nova picape Montana. Também anunciou quatro lançamentos até o fim do ano para mostrar que segue forte no jogo. São dois importados, O novo Bolt elétrico e o SUV Equinox, e duas séries especiais de modelos em linha.

“Essa fábrica quase centenária vai poder competir com qualquer outra do mundo, em qualidade e eficiência”, afirma Michel Malka, diretor executivo das plantas de São Caetano e de Mogi das Cruzes. A reforma está incluída no plano de investimento de R$ 10 bilhões programado para até meados da década.

Situação temporária

Nos primeiros sete meses de 2020, a participação da então líder GM nas vendas de automóveis e comerciais leves era de 17,5%. Neste ano despencou para 11,5%. Nos últimos três meses isolados a marca ficou na sétima posição em vendas, perdendo também para Hyundai, Toyota, Jeep e Renault

A Fiat ocupou o posto de número um em vendas ganhando os pontos de mercado que a GM perdeu, e mais um pouco de outras marcas. Sua participação saltou de 14,4% no acumulado de janeiro a julho do ano passado para 22,9% nas vendas deste ano. Para o presidente da Bright Consulting, Paulo Cardamone, vai levar um bom tempo para a GM recuperar a fatia perdida.

Ao Estadão, a GM afirma que a situação de hoje é “pontual e temporária”. Diz ainda que a marca Chevrolet tem portfólio amplo de produtos recentemente atualizado com as mais avançadas tecnologias de eficiência energética, segurança e conectividade. Uma das novidades recentes é o SUV Tracker, que entrou em linha na fábrica de São Caetano no ano passado.

“O Onix é o carro preferido do consumidor brasileiro, e o retorno da produção em Gravataí (RS) é importante pois vamos começar a atender aos milhares de clientes que aguardam pelo produto nas concessionárias em todo o País”, informa a montadora.

Jaime Ardila, sócio da consultoria internacional Hawksbill Group, com sede nos Estados Unidos, avalia que a falta de chips para a produção na GM, assim como em outras empresas, é resultado da estratégia das companhias de privilegiar mercados e veículos mais rentáveis nos EUA e na China, e deixar a América Latina como prioridade menor.

“A situação para a GM no Brasil é ruim, mas sem dúvida é temporária e deve melhorar até o fim do ano”, prevê Ardila, que já presidiu a montadora no Brasil e na América do Sul. 

Cardamone também credita a situação da GM a uma decisão de negócio da matriz, que adquire os semicondutores – a maior parte na Ásia –, e repassa às fábricas do grupo. Ele lembra que a indústria automotiva consome apenas 10% da produção global desses itens e é provavelmente a última da fila a receber o produto que ficou escasso durante a pandemia.

Em sua opinião, “a matriz privilegia os mercados mais rentáveis e estáveis, principalmente num momento em que precisa de dinheiro para investir em eletrificação dos seus modelos.” Cardamone afirma que manter uma fábrica parada por muito tempo custa caro pois, mesmo sem produzir é preciso fazer a manutenção de robôs, equipamentos e pagar funcionários.

“O que está acontecendo não é demérito da GM, mas do mercado, e não consigo vislumbrar reversão rápida pois as informações são de que a escassez de semicondutores deve continuar até meados de 2022”, afirma Ricardo Bacellar, responsável pela área automotiva da KPMG do Brasil. 

Retornos parciais

Dirigentes dos sindicatos de trabalhadores das três fábricas de veículos da GM afirmam que a empresa não fala, no momento, em qualquer medida de redução de mão de obra. Na unidade de São José dos Campos (SP), a única em operação no momento, fala-se até em criação de um terceiro turno se o abastecimento de componentes for normalizado.

O secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos local, Renato Almeida, diz que a empresa está direcionando todos os semicondutores que recebe para esta unidade para a produção da picape S10 e do SUV Trailblazer, porque são modelos de maior valor agregado.

Segundo ele, quando faltam peças os funcionários são dispensados e quando a remessa chega eles trabalham aos sábados ou em feriados para repor a produção. “A GM contratou 450 funcionários temporários neste ano, em princípio por seis meses, já prorrogou por mais seis meses e há expectativa de mais 200 contratações”, informa Almeida.

Na fábrica de São Caetano, parada desde 26 de junho, o retorno ocorrerá em 26 de agosto para apenas um turno de trabalho – cerca de 2 mil funcionários, segundo Aparecido Inácio da Silva, presidente do sindicato dos metalúrgicos local.

Para o segundo turno ainda não há previsão de retorno. Ele lembra que, antes da crise dos semicondutores, a empresa também estudava a volta de um terceiro turno na unidade. A planta produz Onix Joy, Spin e Tracker. 

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Gravataí, Valcir Ascari, calcula que cerca de 1,2 mil funcionários voltarão à fábrica no dia 16 para reiniciar a produção do Onix. O segundo turno deve voltar em setembro ou outubro. Já o terceiro, composto por 600 trabalhadores – que estão com contratos suspensos há um ano e quatro meses – deverão permanecer em casa.

 

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