ALEX SILVA|ESTADÃO
ALEX SILVA|ESTADÃO

Cleide Silva / Textos | Alex Silva / Fotos, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2015 | 21h08

Nos últimos meses, a pequena Itirapina, a 200 km da capital paulista, fervilhou com as obras da fábrica da Honda, um complexo com capacidade para produzir 120 mil carros por ano. Com apenas 17 mil habitantes, boa parte do pessoal que foi trabalhar na construção das instalações da empresa veio de outras localidades, gerando demanda por aluguel de casas – cujos valores mais que dobraram – e por serviços, especialmente de alimentação.

A expectativa dos moradores era de que o movimento continuasse aquecido, embora com demandas diferentes, quando a fábrica começasse a produzir, no início de 2016. Mas, no fim de outubro, a crise econômica levou a empresa a adiar a inauguração, provavelmente para 2017.

“Itirapina murchou”, diz o mais antigo comerciante da cidade, o barbeiro Argemiro Silvestre, de 82 anos. Nos últimos meses, ele precisou manter a barbearia aberta uma hora a mais por dia para dar conta da clientela.

A chegada da montadora japonesa – fruto do maior investimento privado já feito na cidade, de R$ 1 bilhão – seria um marco para o município. De cada três habitantes, um trabalha ou tem parente que é funcionário dos dois presídios locais. Junto com a Prefeitura, as unidades prisionais geram o maior número de postos de trabalho na cidade.

Meta. Conseguir uma vaga numa multinacional que produz automóveis passou a ser a meta de muitos moradores. Filho e sobrinho de agentes penitenciários, Bruno Henrique de Souza Botão, de 20 anos, diz que a maioria dos jovens da cidade sonha com um emprego na Honda, principalmente em razão da possibilidade de crescimento profissional. O presídio inicialmente pode até pagar mais, mas não há ascensão de cargos.

Botão trabalha como técnico em redes de computadores e pensa em cursar uma universidade voltada para a área automotiva. Ele fez um curso no Senai em São Carlos, cidade vizinha, desenvolvido em parceria entre a Honda e o instituto profissional, e aguarda ser chamado para uma entrevista.

“Claro que ficamos apreensivos com o adiamento da fábrica, mas entendemos que o momento é complicado, pois a crise é no Brasil inteiro”, diz Botão.

Funcionário de um dos presídios há 17 anos, Everaldo Mariano Campidelli, de 37 anos, também vai se candidatar a uma vaga na Honda. “O salário pode até não ser melhor, mas há chances de crescimento, valorização profissional e respeito, coisas que o Estado não oferece.” A expectativa é que a Honda pague salário inicial de R$ 1,7 mil.

Futuro garantido. “Quem conseguir entrar na Honda estará com o futuro garantido pois, se for dedicado, terá chances de crescer, porque a empresa tem um plano de carreiras”, afirma Luiz Roberto Castro Lima, de 32 anos.

Lima já trabalhou como chefe de cozinha, caseiro e teve um negócio próprio na cidade, na área de alimentação. Agora, faz serviços de acabamento em obras e vai aguardar, mesmo que por um ano, uma vaga na montadora. “Não vou desanimar.” Ele mora com a mulher e uma filha de 13 anos na casa do sogro, que há 33 anos é agente de segurança em um dos presídios.

Por questões de segurança, a Secretaria de Administração Prisional não revela o número de funcionários nos presídios, que abrigam 657 detentos em regimes fechado e semiaberto. O órgão lembra, contudo, que as unidades geram também trabalhos indiretos em pousadas, restaurantes, lanchonetes, transporte e outros serviços necessários para as visitas aos presos e para os agentes penitenciários.

O presidente da Associação Comercial de Itirapina, Mário Luiz Mroczinski, calcula que 2,4 mil pessoas trabalham nos presídios e nos seus prestadores de serviços, além de 800 na Prefeitura. A Honda prevê a abertura de 2 mil vagas quando estiver operando com capacidade produtiva total.

O prefeito de Itirapina, José Maria Candido (PMDB) foi procurado durante três semanas por telefone, e-mail e pessoalmente, mas não quis atender a reportagem.

Funcionários. Desempregada há um ano, Flaviane Estela Bressani, de 30 anos, aguarda pela oportunidade de “entrar na linha de produção e crescer na empresa”. Embora apreensiva, ela afirma ter visto como correta a atitude da empresa de esperar a situação do País melhorar para, então, iniciar as operações da fábrica.

“Seria pior se ela contratasse e depois demitisse”, afirma Flaviane, que mora com a mãe. Enquanto aguarda o anúncio da data para inauguração e da reabertura de contratações, ela pretende estudar para prestar concursos públicos.

Antes de adiar a abertura da fábrica, que está completamente pronta e iria produzir inicialmente o modelo Fit, a Honda já tinha contratado 120 funcionários, que foram mantidos. Eles estão trabalhando na área de manutenção e testes de equipamentos ou fazendo treinamento da unidade de Sumaré.

Segundo a montadora, a nova data para início de operação “será definida de acordo com a evolução do mercado”.

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Após boom, setor imobiliário desaquece

O comércio e o mercado imobiliário também entraram em compasso de espera, depois de um período de efervescência em Itirapina. Os preços dos alugueis para locação, que quase triplicaram, estão voltando ao normal e há vários imóveis desocupados. Empreiteiras que locaram imóveis para funcionários que trabalhavam nas obras civis da fábrica chegaram a pagar R$ 7 mil mensais em contratos que, em períodos normais, valiam R$ 2,5 mil, informa uma corretora.</p>

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2015 | 20h58

Nos últimos oito meses, o restaurante La Pequetita servia mais de 600 refeições por dia, além de 500 marmitas. Agora oferece cerca de 300 e os pedidos de marmitas acabaram. O número de pessoal que trabalha no estabelecimento aumentou de 12 para 17 e foi mantido, por enquanto. “Ainda estou aguentando, mas vai chegar o dia em que terei de cortar”, informa o dono do restaurante, Auris Paulo Bergamini. Além dos funcionários, ele conta com ajuda da esposa, de dois filhos e de um genro.

Há dois anos em Itirapina, vinda de São Paulo, a família Gomes abriu uma loja de equipamentos automotivos, a 4 Irmãos, a única nesse ramo na cidade, e desfrutou dos bons momentos do comércio. “Funcionários da obra recebiam os salários e vinham aqui na loja colocar aparelhos de som no carro, insulfilm e outros equipamentos”, diz André Gomes, de 18 anos.

Agora o movimento está fraco, mas os irmãos e a mãe não desanimaram. Estão construindo ao lado da loja um lava à jato. “É uma oportunidade de negócio, pois aqui a pessoa tem de deixar o carro o dia inteiro para ser lavado e ainda paga caro”, afirma Gomes. “Vamos oferecer preço mais baixo e serviço em 40 minutos.”

Já a maior loja de itens para casa, calçados e vestuário da cidade, a Tem Total Modas, inaugurada há oito meses, não resistiu à queda do movimento após o fim das obras da Honda e da previsão de que a produção só começará em um ano. No dia 19, após período de megaliquidação, a loja fechou as portas. Nenhum representante da empresa, que tem rede de 27 lojas em várias cidades, quis comentar o fechamento.

A decisão da Honda de construir uma segunda fábrica no Brasil, anunciada em agosto de 2013, era para dobrar a capacidade produtiva da marca japonesa no País, para 240 mil veículos ao ano, e desafogar a unidade de Sumaré (SP), que opera com horas extras.

Entre as fabricantes que atuam no País há mais tempo, a Honda foi a única a registrar crescimento de vendas neste ano, de 14,3% até novembro. A empresa informa que, diante das dificuldades atuais do segmento automotivo – que no ano registra queda total de 25% nas vendas –, a expectativa da marca é manter em 2016 o mesmo volume de negócios deste ano, o que poderá ser suprido pela fábrica de Sumaré.

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À espera dos carros de luxo da Mercedes

Rodeada por canaviais e com grande parte de sua economia dependente da Usina Iracema, maior empregadora e maior geradora de impostos do município, Iracemápolis, no interior de São Paulo, está a três meses da inauguração da fábrica de carros de luxo da Mercedes-Benz, programada para março.</p>

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2015 | 20h58

A expectativa é que a montadora mude a economia da cidade de 24 mil habitantes, com a chegada de empresas fornecedoras de peças e serviços e até de um hotel de bandeira internacional, empreendimento inexistente na cidade. O orçamento local, que este ano deve girar em torno de R$ 54 milhões, deve dobrar até 2018, “só com a fábrica da Mercedes”, prevê o prefeito Valmir Gonçalves de Almeida (PSD).

A busca por uma vaga na montadora movimenta moradores que querem escapar da sina de pais e avós de trabalhar com a cana. A empresa deve iniciar operações com 500 a 600 funcionários, mas planeja gerar mil vagas quando operar com capacidade produtiva de 20 mil carros por ano.

O Senai, que funciona em instalações provisórias, já formou 540 alunos num curso para montador de sistemas automotivos. Novas turmas serão criadas no próximo ano, quando será aberta uma unidade própria do Senai na cidade. Hoje, a coordenação do curso técnico é da filial de Limeira.

“Meu pai puxava cana para a usina”, conta Luis Henrique Dellariva, de 41 anos. Casado e pai de três filhos, está desempregado há quatro meses, após dois anos de trabalho numa fábrica de capacetes. A família se vira com o salário da esposa, funcionária de um escritório de advocacia. Trabalhar na Mercedes “é uma chance de subir na vida, por ser uma grande multinacional”, diz Dellariva. “O salário é bom e ainda tem os benefícios”, diz ele, que no último emprego recebia R$ 1,3 mil por mês. A Mercedes deve pagar cerca de R$ 1,7 mil.

O casal Lidervando Araújo Silva e Denivalda Dias Neri, ambos de 32 anos e desempregados, veem na multinacional “uma possibilidade de crescer e se desenvolver profissionalmente”, diz Silva. Ele foi operador de logística por sete anos e, enquanto aguarda uma vaga, faz bicos de cabeleireiro. Ela trabalhava numa autopeça.

Dar continuidade aos estudos e cursar uma faculdade é o sonho de Paulo Roberto Cardoso, de 31 anos. Ele perdeu o emprego em uma metalúrgica de Limeira em maio, “por causa da crise”. Por enquanto, se vira com bicos de pedreiro e personal trainer para ajudar a cuidar do pai, que está doente.

Aulas de alemão. “Sempre quis montar um carro e faço muitas pesquisas na internet sobre o tema”, conta Leandro Martinelli, de 30 anos, portador de necessidades especiais. “Tentei uma vaga na Hyundai, em Piracicaba, mas não consegui”. Atualmente ele trabalha como repositor de estoques em um supermercado e mudou o horário de expediente para poder fazer o curso de montador e se habilitar a uma vaga na Mercedes.

A montadora já contratou cerca de 200 funcionários. Entre eles está Ivete Aparecida de Almeida Campos, de 52 anos, cujo pai trabalhou na usina local por 20 anos. “Quero buscar novos cursos para crescer na empresa”, diz ela, contratada como inspetora de qualidade em setembro, depois de trabalhar por dez anos no comércio. Ela tem segundo grau e se inscreveu em um curso de inglês para o próximo ano. “Depois quero estudar alemão”.

Empregos. Ao contrário de quase todo o País, Iracemápolis registra, até novembro, saldo positivo de 407 postos de trabalho, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). No ano passado, em igual período, o estoque era de 30 postos negativos.

“A base da economia local é a usina de açúcar e álcool”, confirma o presidente da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Iracemápolis, Carlos José Fedato. A Usina Iracema, pertencente ao Grupo São Martinho, criada há mais de 70 anos, emprega 2 mil funcionários.

A própria área onde está a fábrica da Mercedes era um canavial. Com investimento de R$ 500 milhões, o grupo ergueu uma fábrica compacta e moderna, a terceira da marca alemã no País, que já produz caminhões e ônibus em São Bernardo do Campo (SP) e Juiz de Fora (MG). As obras estão em fase de acabamento na parte externa.

A fábrica iniciará operações com a produção do sedã Classe C (que custa a partir de R$ 143 mil) e, no segundo semestre, deve entrar em linha o utilitário GLA (hoje vendido a partir de R$ 129 mil).

Na cidade, os moradores conhecem apenas dois proprietários de modelos importados da Mercedes, um deles o empresário Paulo César Demarchi. Dono da fabricante de peças plásticas Iraplast, ele tenta obter contratos com a montadora. “Como filho de Iracemápolis, gostaria muito de fornecer para eles.”

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Maior restaurante da cidade abrirá filial

Maior restaurante da cidade, a Churrascaria Estrela do Sul abrirá uma filial próxima às instalações da fábrica da Mercedes com capacidade para atender 350 pessoas ao dia. “A nova unidade será mais requintada”, diz o sócio da empresa, o gaúcho Elizandro Silveira, de 35 anos. A intenção é atender principalmente gerentes e diretores da montadora e os fornecedores de equipamentos e serviços que visitarão o local diariamente.</p>

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2015 | 20h58

O restaurante atual, no centro da cidade, foi aberto em 2004, quando Silveira mudou-se para lá. No início deste ano, tinha capacidade para atender 140 pessoas. Com o aumento da clientela, formada principalmente por funcionários das obras da fábrica e fornecedores de serviços, Silveira alugou um imóvel ao lado da churrascaria e ampliou a capacidade para 240 pessoas.

O número de funcionários aumentou de 20 para 25. Para o novo empreendimento, que começará a ser construído em março, ele calcula que serão geradas mais 35 a 40 vagas.

Na perfumaria Cheiro Doce, inaugurada há 25 anos, a proprietária Roseli Aparecida Basso Donatti, de 53 anos, diz que nos últimos cinco meses as vendas cresceram 10%. “Atendemos muitos prestadores de serviços da Mercedes que vêm aqui com crachá”, diz. “O movimento só não foi melhor por causa da crise”, afirma ela, para quem a inauguração da fábrica deverá “agitar ainda mais o comércio local”.

Aos sete anos, Regina Nunes Cláudio foi ajudar o pai no trabalho de corte de cana, junto com os oito irmãos. A família morava nas terras da antiga Usina Boa Vista, mais tarde integrada à Usina Iracema. “Trabalhei na roça até os 20 anos”, conta ela. Hoje com 60 anos, é dona de uma loja de roupas femininas e masculinas, a Realce.

No comércio há 33 anos, ela diz que 40% da clientela atual é formada por pessoas ligadas às obras da Mercedes. “Se não fosse esse pessoal, esse ano teria sido ainda pior”, afirma Regina, que calcula uma queda de 20% nos negócios. A expectativa é que o início das operações da montadora traga mais gente à cidade e, claro, mais clientes para a loja.

Nos últimos dois anos o número de imobiliárias em Iracemápolis dobrou, de três para seis. Após 12 anos sem um novo empreendimento imobiliário, um grupo de construtoras fez um loteamento com 900 terrenos em 2014 “e todos já estão vendidos”, diz Vicente Cosenza Filho, dono da Imobiliária Supremacia.

Em uma grande área ao lado da fábrica, um grupo de investidores planeja construir um complexo com hotel – o primeiro da cidade –, condomínio residencial, lojas de comércio e restaurantes. É nesse terreno que Silveira comprou lote para construir seu segundo restaurante. O nome do grupo investidor, por enquanto, é mantido em sigilo.

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