Fabricantes de calçados esperam aumento de taxa antidumping

Setor teve ano positivo no mercado interno; taxação de produto chinês está em vigor desde setembro passado

Sandra Hahn, da Agência Estado ,

18 de janeiro de 2010 | 13h28

PORTO ALEGRE - Após um ano positivo no mercado interno, a indústria calçadista acredita que 2010 pode ser ainda melhor. A aplicação do direito antidumping para o produto chinês, iniciada em setembro de 2009, e principalmente a melhora progressiva de renda dos consumidores acrescentaram 42 mil postos de trabalho ao setor no ano passado, afirmou o diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados), Heitor Klein. Isso apesar do desempenho negativo das exportações, que caíram 27,7% em receita, para US$ 1,360 bilhão, e 23,7% em volume, para 126,6 milhões de pares, na comparação com 2008.

 

A diversificação de mercados não foi suficiente para compensar os problemas com o câmbio. O produto brasileiro chegou a 146 países. Mesmo assim, enfrentou o efeito da crise financeira em importantes mercados e do dólar em queda. O câmbio teve o maior peso no recuo das exportações, avaliou Klein. Além disso, o Brasil, como terceiro maior produtor e quinto maior exportador mundial de calçados, também desperta protecionismo em países vizinhos. O diretor da Abicalçados citou Argentina, Equador e Venezuela como países que adotaram medidas protecionistas.

 

O mercado brasileiro, que representa aproximadamente 75% das vendas da indústria, prepara as encomendas de outono e inverno, cujo ponto de partida dos lançamentos é a 37.ª Feira Internacional de Calçados, Artigos Esportivos e Artefatos de Couro (Couromoda), principal evento setorial da América Latina, que começa na segunda-feira (18) em São Paulo. A Abicalçados vai divulgar, no evento, pesquisa que mediu o desempenho do mercado interno. O aumento do emprego em todos os principais polos fabricantes de calçados foi um dos sinais do expressivo crescimento da demanda interna em 2009, observou Klein.

 

A investigação da prática de dumping contra o calçado chinês, que resultou na aplicação de sanção provisória em setembro, terá andamento na próxima semana com uma audiência pública em Brasília, no dia 19. Nela, o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior irá ouvir os argumentos das duas partes para tomar uma decisão definitiva. Os fabricantes de calçados esperam que o direito antidumping seja confirmado e ampliado. Até agora, vigora uma taxa temporária de US$ 12,47 por par de sapatos. A medida pode ser válida por até cinco anos. O setor conta com uma elevação da taxa, com base na avaliação do ministério, que indicou direito de aplicar US$ 18 por par.

 

A importação de calçados chineses pelo Brasil caiu 32,7% em volume em 2009, ante 2008, e 16,1% em valores. Foram adquiridos 22,6 milhões de pares da China, por US$ 183,6 milhões. Em compensação, os pedidos de outros países aumentaram. O Vietnã forneceu 4,1 milhões de pares, com US$ 64,5 milhões em receita, 26,9% a mais em volume e 36,9% acima em faturamento. No balanço global, as importações diminuíram 22,8% em volume, para 30,4 milhões de pares, e 3,6% em receita, para US$ 296,5 milhões.

 

Couro

 

Entre os fornecedores de matéria-prima para calçados, a indústria de couro sofreu o mesmo efeito prejudicial do câmbio nas exportações, apesar de sustentar o volume embarcado - houve alta de 4% em 2009. A China, que preocupa os fabricantes de calçados, é o principal mercado do couro brasileiro no exterior. O país asiático manteve seu crescimento econômico apesar da crise e recebeu 23% das exportações de couro, à frente da Itália, com 22,9%, e de Hong Kong, com 12,5%. Os Estados Unidos compraram 8,7% da produção exportada, informou a Associação das Indústrias de Curtumes do Rio Grande do Sul (AICSul). A China importou, em 2009, 24% a mais em volume, com valor menor, observou o consultor da AICSul André Santos.

 

O presidente da AICSul, Francisco Gomes, disse esperar que em 2010 o setor recupere o recuo de 38% na receita exportada em 2009, que somou US$ 1,160 bilhão. Ao contrário do calçado, o principal comprador do couro é o mercado externo. Entre 43 milhões de peças de couro produzidas por ano, 25 milhões são exportadas para fabricantes de estofamento e calçados fora do Brasil e 18 milhões são comercializadas no mercado interno, principalmente na indústria calçadista. O preço do couro na exportação cresceu 5,5% entre janeiro e dezembro de 2009, mostrando que há recuperação, mas é lenta, descreveu Santos.

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