Fábricas na China começam a mudar

Pressionadas, empresas chinesas melhoram aos poucos as condições de trabalho

KEITH BRADSHER, CHARLES DUHIGG, THE NEW YORK TIMES, CHENGDU, CHINA, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2012 | 02h08

No verão passado, Pu Xiaolan estava no meio do seu turno de inspetora de estojos de iPad quando recebeu uma cadeira de madeira com um encosto alto e rígido. Num primeiro momento, Pu se perguntou se alguém não teria cometido algum erro. Mas, quando seus chefes passaram por ela, eles acenaram com a cabeça. Então Pu sentou devagar e apoiou as costas ao encosto. Seu corpo relaxou. Então os boatos eram verdadeiros.

Quando Pu foi contratada nesta fábrica da Foxconn, um ano antes, recebeu um banco verde de plástico que provocava dores tão fortes nas costas que ela mal conseguia dormir à noite. Mais tarde, foi promovida para uma cadeira de madeira, mas o encosto era baixo demais para apoiar as costas. Ela imaginou que os gerentes desta fábrica de 164 mil funcionários acreditavam que o conforto encorajaria a preguiça.

Mas, em março, sem que ela soubesse, houve uma reunião crucial entre os principais diretores da Foxconn e um executivo de alto escalão da Apple na qual as companhias se comprometeram a empreender amplas reformas. A Foxconn, a maior empregadora privada da China, prometeu reduzir consideravelmente o expediente dos trabalhadores e aumentar seus salários - reformas que, se implementadas no próximo ano, conforme planejado, poderão criar um efeito em cascata, beneficiando dezenas de milhões de trabalhadores em toda a indústria eletrônica, afirmam especialistas.

As mudanças se estenderão também à Califórnia, onde a Apple está sediada. A Apple, gigante da eletrônica, no ano passado triplicou sua equipe de responsabilidade social, reavaliou suas relações de trabalho com as fabricantes, pediu às concorrentes que ajudassem a reduzir as excessivas horas de trabalho na China e procurou aproximar-se dos grupos de defesa dos direitos dos trabalhadores, que outrora evitava.

Os executivos de companhias como HP e Intel afirmam que essas mudanças convenceram muitas companhias do setor de que devem também avaliar suas relações com as fábricas e os trabalhadores estrangeiros - muitas vezes comprometendo o seu resultado final, embora, afirmam os analistas, provavelmente não a ponto de afetar os preços.

Mesmo com essas reformas, continuam existindo problemas crônicos nessas fábricas. Muitos trabalhadores ainda obedecem a uma jornada ilegalmente prolongada, e a segurança de alguns empregados continua precária.

Foxconn. "É uma desgraça!" gritou Terry Gou, fundador e presidente da Foxconn, a maior fabricante de produtos eletrônicos do mundo e a mais importante parceira industrial da Apple.

Era março deste ano, e Gou - considerado há muito tempo pelos ativistas um obstáculo à melhoria das condições do trabalho em suas fábricas - estava se reunindo com seus principais representantes em Shenzen, na China. Em 2011, o New York Times começara a enviar à Apple e à Foxconn perguntas abrangentes sobre as condições dos funcionários nas fábricas da Apple. Os artigos publicados no final de janeiro apresentavam com detalhes os problemas encontrados, como expedientes excessivamente longos e trabalhadores menores de idade, além de riscos muitas vezes mortais.

Em janeiro, a Apple divulgou pela primeira vez os nomes de várias de suas fornecedoras. Além disso, a companhia tomou a iniciativa inusitada de aderir à Fair Labour Association, um dos maiores grupos de monitoramento dos locais de trabalho. Os auditores dessa associação inspecionaram imediatamente as parceiras da Apple na China, a começar pela Foxconn.

Agora, Gou está se convencendo dos resultados dessas avaliações. A Foxconn ainda não acabou com as horas excessivas de trabalho, disse o inspetor chefe da associação a Gou e aos seus representantes, segundo várias pessoas a par da reunião. A companhia ainda permite que estagiários estudantes trabalhem nos turnos da noite. A Foxconn não pôs em prática todas as medidas de segurança e permite que centenas de milhares de trabalhadores fiquem expostos a pelo menos 43 violações da legislação e regulamentação chinesa.

Mas o inspetor Auret van Heerden, da Fair Labor Association, ainda não estava satisfeito. Ele se voltou para o executivo da Apple que estava na sala, o vice-presidente sênior de operações, Jeff Williams. A Apple também precisa adotar mudanças, disse. "A soluções a longo prazo exigem uma abordagem mais humanas, mais complexas."

Quando Williams regressou à Califórnia depois da reunião de março, as mudanças começaram. Entre elas, a contratação de cerca de 30 profissionais para a unidade de responsabilidade social da Apple, o que triplicou as dimensões da divisão e levou para a companhia ativistas corporativos muito conhecidos.

A Foxconn também mudou. Depois da reunião, anunciou que até julho de 2013 nenhum funcionário poderá trabalhar mais do que 49 horas semanais em média - o limite estabelecido na China. Anteriormente, alguns funcionários trabalhavam por até 100 horas semanais. A companhia prometeu também aumentar os salários, para que a remuneração dois funcionários não encolha com a redução das horas trabalhadas.

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