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Fábula de Carnaval

D. Clarice respeita as velocidades. Para não correr riscos, até costuma andar um pouco mais devagar do que o autorizado. E não se importa, tanto faz se buzinam

Antonio Penteado Mendonça, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2017 | 15h13

Dona Clarice é uma senhora de 50 anos, boa motorista, com todos os descontos em sua apólice. Em dez anos dirigindo, nunca se envolveu em acidente.

Sai regularmente de casa para o trabalho e de tarde retorna para casa. Durante o dia, quando tem de sair do escritório, usa táxi e, nos últimos tempos, Uber. Seu carro, com três anos, tem menos de 20 mil quilômetros rodados. Quer dizer, é novo. E bem mantido.

Está sempre limpo, as revisões são feitas de acordo com o manual do proprietário e o óleo, tanto faz o que diga o decalque, é trocado religiosamente a cada seis meses.

D. Clarice sabe quanto custa um automóvel. Por isso, faz questão de ter o seu sempre na mais absoluta ordem. É o melhor jeito de evitar problemas. Além disso, na hora da venda, consegue sempre um extra no preço, o que ajuda na entrada do carro novo. 

D. Clarice não conta vantagem. Para que dizer que nunca bateu? Sua vida é sua, não é da conta dos outros. Se não bateu ou se bateu, o problema é seu e de sua seguradora, que, aliás, é a mesma desde o primeiro veículo e nunca teve de desembolsar um único centavo por conta dela. 

O trânsito em São Paulo é complicado, maluco, sem sentido e sem respeito. Cada um acha que é o dono da rua e passa por cima sem pedir licença. Bem que as mazelas diárias infernizam D. Clarice, mas, como são inevitáveis, ela respira fundo, enche o peito, breca, desvia, enfim, permite que o alucinado faça o que quiser. Discutir não leva a nada e ninguém sabe quem está no carro ao lado. Levar um tiro por uma briga de trânsito pouco custa.

Por isso, D. Clarice respeita as velocidades, não ultrapassa o permitido, tanto faz em que faixa ela viaje. Para não correr riscos, até costuma andar um pouco mais devagar que o autorizado. E não se importa, tanto faz se buzinam, não acelera. Segue impávida pouco se importando com quem está atrás.

D. Clarice é a motorista dos sonhos da CET. Tirou carta frequentando uma boa autoescola. Dá sinal de seta antes de entrar, para na placa de “Pare”, nunca cruza no amarelo, breca para pedestres, tanto faz se tem faixa ou não. Também respeita animais, ciclistas e carrocinhas. E não é raro vê-la dirigindo com uma roda em cada pista, como se as faixas para separá-las (quando existem) fossem um trilho sobre o qual ela deveria centralizar seu automóvel.

Com um currículo destes, D. Clarice se orgulha de, em toda sua vida, ter levado apenas duas multas. Uma por estacionamento proibido e outra por não respeitar o rodízio e entrar na área restrita às 7 horas e 5 minutos da manhã.

Este ano D. Clarice resolveu passar o carnaval no interior. E decidiu ir de carro, apesar de nunca, em todo os anos em que é habilitada, ter dirigido em estrada. Levou o carro na revisão, abasteceu e pegou o rumo, justamente no final da tarde, porque é mais fresco e ela não gosta de ar-condicionado.

Com os faróis altos acesos, entrou na pista da esquerda e acelerou firme até impressionantes 80 quilômetros por hora e os manteve como velocidade de cruzeiro, sem pensar em mudar para a pista da direita, apesar dos faróis altos em seu retrovisor, seta pedindo passagem e algumas palavras desagradáveis ditas pelos que perderam a paciência e fizeram a ultrapassagem pela direita.

Até que a tragédia aconteceu. Um caminhão transportando um contêiner se aproximou e pediu passagem. D. Clarice se manteve impassível. E assim foram por alguns quilômetros, até ela achar que tinha um cachorro atravessando a estrada. Sem certeza de que havia um bicho na pista e sem pensar, D. Clarice meteu o pé até o fundo no breque.

Seu carro parou, mas o caminhão que vinha atrás não. Nem o que vinha atrás dele. O resultado foi um grande engarrafamento, com o carro de D. Clarice atingido pelo contêiner que acabou sobre ele. Graças a Deus, nem ela nem os demais motoristas sofreram danos corporais mais sérios. Mas os veículos ficaram destruídos.

Moral da história: não ter multas não é sinônimo de dirigir bem. Cidade é cidade e estrada é estrada. Não bater na cidade não significa que entrar numa estrada sem prática nenhuma não seja um tremendo risco para si e para os outros. 

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