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Facebook é imprensa?

Segundo um jornalista que trabalhou na rede social, notícias com viés conservador eram excluídas da lista de temas mais discutidos

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2016 | 05h00

Na última segunda-feira, o blog Gizmodo publicou uma dura acusação contra o Facebook. Segundo um jornalista que trabalhou na rede social, notícias com um ponto de vista conservador eram rotineiramente excluídas da lista de temas mais discutidos. Estes trending topics, com os assuntos mais badalados do momento, não existem na versão brasileira do Facebook. São uma exclusividade americana e ficam num espaço proeminente, na pequena coluna à direita da timeline de cada usuário. Nos Estados Unidos, todos a veem.

A ideia de que a maior rede social do planeta poderia manipular ideologicamente o noticiário repercutiu com força. Um deputado republicano sugeriu uma investigação parlamentar. O Facebook nega com ênfase a acusação. Tanto o New York Times quanto o Guardian ouviram outros ex-funcionários da empresa que trabalhavam no mesmo projeto. Todos negam qualquer manipulação política. É a palavra de um anônimo contra muitos.

A acusação tem cara de ser falsa, mas não resolve o problema. Segundo um estudo do Centro Pew, no ano passado, 63% dos usuários do Facebook, nos EUA, disseram usá-lo para se informar sobre o que ocorre no mundo. E gente no comando da rede sempre deu a entender que a seleção daquela lista era feita por software. Agora ficou claro que não é assim.

Quando começou a testar o recurso de trendig topics nos EUA, o Facebook optou por um sistema automático, mas começou a enfrentar críticas. Em 2014, o assassinato de um jovem negro por um policial branco em Ferguson, no estado de Missouri, não veio à tona. Não havia gente o suficiente discutindo-o para emplacar. Isto jamais ocorreria em um site noticioso. A decisão da rede foi trazer jornalistas a bordo para monitorar a lista automática e interferir quando necessário.

O Guardian conseguiu uma cópia do manual de conduta que a rede distribui a estes jornalistas. É um bom manual, que leva em consideração os aspectos éticos habituais da profissão. Lembra, segundo o jornal britânico, o manual da agência de notícias Associated Press (AP), um dos mais rigorosos que há.

O problema é que os usuários não sabiam que há decisões editoriais por trás da escolha. O nome dos repórteres e dos editores que trabalham lá não está publicado em lugar algum. Aliás, todos os jornalistas ex-funcionários entrevistados pela imprensa americana falaram em condição de anonimato. Como se trabalhar com jornalismo tivesse de ocorrer em segredo.

Todos os funcionários do Facebook têm acesso a uma ferramenta que lhes permite escolher que perguntas farão ao CEO da empresa, Mark Zuckerberg. Em março, dentre estas questões estava: que responsabilidade temos para ajudar a impedir a eleição de Donald Trump? A resposta do Facebook, segundo o Gizmodo, é impecável. O voto é um valor absoluto da democracia, a empresa não usará seus produtos para influenciar como as pessoas votam. Só que, como destacou o colunista Farhad Manjoo, passa pela cabeça de alguns funcionários da rede que manipular eleições pode ser legítimo.

Se 63% dos americanos que usam o Facebook têm na rede sua principal fonte de informação. Se o Facebook contrata jornalistas para interferir nas notícias que devem ganhar destaque. Se noticiário é o tipo de informação mais consumida por lá. Se há um manual de redação interno, em que momento pode-se dizer que o Facebook é, entre outras coisas, um veículo de imprensa?

Usuários não sabiam que há decisões editoriais por trás dos ‘trending topics’

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