‘Fake news é promovida porque atrai publicidade’

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‘Fake news é promovida porque atrai publicidade’

Especialista aponta interesse econômico na propagação de notícias falsas, que geram audiência na web e se espalham até 70% mais rápido do que as verdadeiras

Entrevista com

Sinan Aral, especialista em fake news e marketing digital

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2019 | 04h00

Uma das principais referências globais sobre o fenômeno das notícias falsas, Sinan Aral, professor da escola de negócios do Massachusetts Institute of Technology (MIT), conduziu um estudo em parceria com o Twitter mostrando que as fake news se espalham 70% mais rápido do que as informações verdadeiras – especialmente as de conteúdo político. “A informação falsa parece mais saborosa.”

E ele diz que isso continuará a ser uma ameaça na próxima década, até porque o fenômeno é alimentado por interesses políticos e também econômicos – uma vez que as fake news atraem cliques em banners, o que significa remuneração com veiculação de publicidade. “Muito conteúdo falso é promovido porque atrai audiência e, por consequência, dinheiro de publicidade.”

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Por que notícias falsas se espalham mais do que as verdadeiras?

Fizemos um estudo com o Twitter sobre esse tema. Tivemos acesso a dez anos de dados da rede social e percebemos que as notícias falsas se espalham mais rapidamente em todas as categorias de informação. E as notícias falsas mais virais são justamente as notícias sobre política. As notícias falsas têm 70% mais chances de serem compartilhadas do que as reais.

É uma questão de conteúdo?

Trabalhando com a hipótese do ineditismo das notícias, percebemos que as pessoas são atraídas por novidades. Nesse sentido, as notícias falsas têm mais chance de parecerem realmente novas, dão a impressão às pessoas de que elas estão tendo acesso a informações confidenciais. Percebemos que, ao comentar notícias falsas, as pessoas expressam mais surpresa e alarme. A notícia falsa parece mais saborosa.

Mas esse “sabor” não vem justamente da falta de compromisso com a verdade?

Nem sempre. Em boa parte dos casos, as notícias falsas têm elementos de informação verdadeira. Elas têm mais nuance, parecem mais convincentes.

Qual é o papel das redes sociais na disseminação de notícias falsas?

As redes sociais podem ser muito valiosas para a sociedade e também ter um efeito nocivo para a democracia, a economia e a saúde pública. É só analisarmos os efeitos das narrativas antivacinação, da manipulação de notícias falsas em eleições e dos efeitos que inverdades podem ter nos mercados financeiros. Mas é bom lembrar que o fenômeno das notícias falsas não começou com a eleição dos EUA, em 2016. Isso ocorreu, em grande escala, durante a invasão da Crimeia pela Rússia (em 2014). A manipulação das redes sociais pela Rússia nessa época foi sistemática e muito bem documentada.

E o papel do WhatsApp?

Eu considero o WhatsApp uma espécie de mídia social, assim como outras plataformas de comunicação descentraliza e digitais, como Telegram e Facebook Messenger. O WhatsApp é uma preocupação no Brasil e na Índia. É possível criar um grupo de 256 pessoas e compartilhar todo tipo de informação – é uma plataforma tremendamente poderosa para espalhar notícias falsas.

Existe uma forma de contornar as fake news?

Na próxima década, a questão das notícias falsas continuará a ser um problema global. O uso de notícias falsas passou pelo Brexit, pela eleição brasileira e também pela alemã. Um estudo da Universidade de Oxford mostrou que um terço das informações divulgadas durante as eleições na Suécia era falso. E o mesmo vale para as campanhas contra a vacinação. Uma das formas mais eficazes de combater a disseminação de informação ruim é pela rotulagem – indicando, na internet, que aquele conteúdo não é confiável. E muito conteúdo falso é promovido porque atrai audiência e, por consequência, dinheiro de publicidade. Se anunciar em notícias falsas for proibido, será um passo na direção certa.

Mas isso parece ser insuficiente para resolver o problema, já que as fake news estão em constante evolução.

Sim, até porque existem os “deep fakes” que, por meio da tecnologia, conseguem fazer algo falso parecer muito real, tanto em áudio quanto em vídeo. O futuro das notícias falsas é assustador, porque “ver é acreditar”. E, com os “deep fakes”, é muito fácil acreditar em um vídeo que parece real.

 

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