Fake numbers e desigualdade

Fake numbers da desigualdade levam a diagnósticos errados e a prescrições que isentam certas elites

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2020 | 04h00

Do texto “merdocracia neoliberal neofascista” presente em sentenças de um juiz trabalhista ao relatório da Oxfam, viralizaram no mês que passou números equivocados sobre a desigualdade. Não é que o problema não exista: o combate à desigualdade foi apresentado pelo próprio Estado como o principal valor a ser reafirmado na República. É que os fake numbers da desigualdade levam a diagnósticos errados e a prescrições que isentam certas elites.

Comecemos com o lacrojuiz Jerônimo Azambuja, da tal “merdocracia”: “Depois do Golpe de 2016, o Brasil passou à 2.ª posição de país mais desigual do mundo”. De fato, entre os países com dados, o Brasil perde apenas para o Qatar quanto à parcela da renda concentrada pelo 1% mais rico (28%). O dado repercutiu ano passado – mas é relativo a 2015. 

Não apenas a posição não pode ser atribuída ao impeachment de 2016, como atribuí-la à saída do PT esconde que o número ficou estável em seus governos. Nessa série, a parcela subiu de 25% em FHC a quase 30% no fim de Lula. Uma desigualdade tão alta e tão persistente mesmo em governos em tese comprometidos com sua redução dá ensejo a políticas mais agressivas para tornar tributos e gastos mais progressivos. Essa prescrição não cabe se a culpa é do “golpe” e se o País não era campeão de desigualdade antes.

Fala-se ainda que trilhões dos impostos vão para os rentistas por meio de juros da dívida, citando entidade notória por disseminar fake news. Com déficits primários desde 2014, não há que se falar em impostos indo cobrir a dívida. É o oposto: o mercado financeiro cobre os pagamentos e também as despesas primárias que o governo não tem dinheiro para pagar (como Previdência). 

Medidas como o teto de gastos e a reforma da Previdência reduzem as transferências de juros, ao diminuir o risco da dívida e o preço para financiá-la (os juros). Desde o “golpe”, portanto, a conta dos juros caiu significativamente. O melhor ano para os rentistas da dívida foi 2015: e 2020 pode ser o pior desde que Lula assumiu (em % do PIB). O espantalho dos juros da dívida pública tira atenção do problema dos spreads. Ele decorre da regulação bancária, atacada nos anos recentes pelo Banco Central, e da falta de competição, ainda pouco discutida.

Já a Oxfam divulgou seu tradicional relatório anual dizendo que X bilionários têm o mesmo tanto que os Y mais pobres do mundo, em que X é uma quantidade ínfima e Y são bilhões. No cálculo, os mais pobres do planeta não são os com pouco patrimônio, mas os com patrimônio negativo. Ou seja, cidadãos de países ricos com acesso a crédito e dívidas altas.

Junte a dívida de todos esses que têm empréstimo. Essa montanha de dinheiro anula o patrimônio de outros bilhões de pessoas. Daí que para a Oxfam o leitor terá riqueza maior que bilhões de pessoas – somadas! Bastaria ter um patrimônio maior que zero. Por isso que X pessoas aparecem com o mesmo que bilhões.

Pela conta maluca do patrimônio, americanos são quase 10% dos mais pobres do mundo pela Oxfam, muito embora dados da renda coloquem o 1% mais pobre dos Estados Unidos na metade mais rica do planeta. Vários dos homens mais ricos do mundo provavelmente seriam considerados no passado entre os mais miseráveis, porque puderam contrair dívidas para estudar ou montar seus negócios.

Na realidade, a desigualdade de renda tem caído no mundo, puxada pelo crescimento da Ásia, levantando bilhões da pobreza. A agenda de crescimento dos emergentes não é prioritária para Oxfam, que em seu relatório na verdade dá ênfase a “construir uma economia feminista”. Soa oportunista, depois do escândalo envolvendo a ONG – acusada de acobertar os casos de assédio sexual de seus membros contra meninas vulneráveis. Houve boicote no seu financiamento e, em 2019, o governo britânico a censurou pela “cultura de tolerância com maus comportamentos”. O desprestígio fora do Brasil contrasta com a animação que parte de nossa imprensa divulga acriticamente seus documentos.

Se a desigualdade no Brasil é problema de um punhado de bilionários, estão isentas elites que não gostam de se ver como tal – como o funcionalismo, os profissionais liberais subtributados, até os ultrarricos viciados em crédito subsidiado ou proteção tarifária.

Por exemplo, os resultados da Oxfam são rotineiramente disseminados por associações como a de auditores. Elas estão na linha de frente contra medidas progressivas nas reformas da Previdência, administrativa ou no teto de gastos, e têm muitos de seus associados no 1% mais rico. Já uma milionária youtuber compartilhou os resultados e propôs “hackear” o sistema, direcionando sua raiva contra os tais bilionários. Do servidor de elite à milionária, desigualdade acaba sendo os privilégios dos outros. Chega de fake numbers: a desigualdade é um problema grande demais para não ser problema de ninguém.

* DOUTOR EM ECONOMIA 

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