Lucas Lacaz Ruiz/Estadão
Lucas Lacaz Ruiz/Estadão

Fala de Bolsonaro sobre desemprego mostra 'total desconhecimento', dizem servidores do IBGE

Presidente eleito chamou de 'farsa' os números atuais do mercado de trabalho divulgados mensalmente pelo órgão

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2018 | 15h32

RIO - Gerou indignação e preocupação entre os servidores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a fala do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) desqualificando a produção de dados de desemprego no País. Ele chamou de "farsa" os números atuais, divulgados mensalmente pelo órgão, vinculado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e fundado em 1934.

Os servidores interpretaram que Bolsonaro demonstrou, com suas declarações, completo desconhecimento do conceito de emprego, e também da metodologia utilizada pelo corpo técnico, que segue padrões internacionais.

"A metodologia é aceita internacionalmente. Seguimos orientações da ONU e da Conferência Internacional dos Estatísticos do Trabalho. O cálculo não tem nada a ver com o bolsa-família. A pessoa é considerada ocupada se tiver trabalhado no período de referência da pesquisa", avaliou uma representante da Associação de Servidores do IBGE em entrevista ao Estado, que, temendo retaliações, preferiu não se identificar. "Também não há relação com seguro-desemprego nem com busca por emprego. É possível discordar, mas tem que fundamentar. Dizer que vai mudar é muito grave, porque entramos na casa das pessoas, nosso trabalho é calcado na credibilidade."

Em nota à imprensa, a ASSIBGE pontua que "o IBGE segue padrões metodológicos internacionais em suas pesquisas, com a finalidade de que as estatísticas brasileiras sejam comparáveis às dos demais países do mundo", que "o IBGE é reconhecido nacional e internacionalmente pela qualidade do seu quadro técnico e pela credibilidade das suas informações" e que "dentre os princípios que regem seu funcionamento estão a independência política e a autonomia técnica na definição de suas metodologias". 

A nota diz ainda que "a intervenção política em órgãos oficiais de estatísticas já se mostrou desastrosa para a credibilidade de instituições de pesquisa, como ocorreu recentemente na Argentina" e que "o corpo técnico do IBGE nunca foi fechado à contribuição da sociedade brasileira para o aperfeiçoamento das suas pesquisas; a própria implementação da PNAD Contínua foi resultado de discussões no âmbito do Fórum do Sistema Integrado de Pesquisas Domiciliares (SPID), que remontam a 2006".

A ASSIBGE destaca que "a metodologia das pesquisas não depende da vontade de qualquer governo, pois somos um órgão de Estado, a serviço da sociedade brasileira" e aproveita para pedir urgência na realização de concurso público. "Nossa missão é 'retratar o Brasil com informações necessárias ao conhecimento de sua realidade e ao exercício da cidadania'. Continuaremos a fazê-lo com a dedicação de sempre, mesmo que isso não agrade aos governantes. Os políticos passam, a credibilidade do IBGE fica!", termina a nota.

Entenda

Na segunda-feira, 5, em entrevista à Band, Bolsonaro disse que pretende mudar a forma como se calcula oficialmente o número de desempregados. "Vou querer que a metodologia para dar o número de desempregados seja alterada no Brasil. O que está aí é uma farsa", afirmou, sem citar especificamente o IBGE, mas respondendo a uma pergunta sobre os últimos dados do instituto referentes à contínua queda do desemprego.

"Quem recebe Bolsa Família é tido como empregado, quem não procura emprego há mais de um ano é tido como empregado, quem recebe seguro-desemprego é tido como empregado. Temos que ter uma taxa não de desempregados, e sim de empregados. Não tem dificuldade para ter isso aí e mostrar a realidade para o Brasil", declarou.

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