Fala de Fraga não alivia e dólar segue em alta

A trajetória de alta do dólar continua, apesar da entrevista coletiva que o presidente do Banco Central (BC) deu ontem, numa tentativa clara de segurar o câmbio com palavras. A resposta do mercado foi de confirmar que a pressão deste momento está mais atrelada aos grandes vencimentos de dívida cambial do mês e que a "crise de incertezas" à qual Fraga se referiu é fundamental, sim, mas está como pano de fundo no comportamento de curto prazo das cotações.O presidente do BC atribuiu mais uma vez à transição política e, especificamente, à falta de definição por parte dos candidatos (leia-se PT) em relação à política econômica a responsabilidade pelo clima de nervosismo que resulta em alta do dólar. Essas colocações foram interpretadas como políticas por muito analistas e órgãos de imprensa. E, no mercado, a recepção não foi positiva. "Fraga ontem reforçou a teoria de que o BC está agindo com viés político mas, principalmente, demonstrou que prefere transferir para outro a responsabilidade de conter o câmbio", diz um operador. Esse profissional observa que é evidente que o cenário político é a principal razão para o momento de nervosismo, mas o que levará o dólar a R$ 4,00, é a concentração de vencimentos que o próprio BC gerou", acrescenta. Ao longo do ano a autoridade monetária foi encurtando o prazo dos títulos cambiais, pois o mercado resistia a comprar papéis com vencimento no próximo governo. Com isso, a concentração nesses últimos meses do ano é muito grande, e antes do segundo turno vencerão US$ 4,7 bilhões em papéis atrelados ao câmbio, além de cerca de US$ 2 bilhões em obrigações das empresas.Além disso, como o próprio mercado diz, a crise de confiança estava prevista e permeia as decisões do mercado há meses. Todos sabiam que o fluxo de recursos estrangeiros seria interrompido nesta fase em que o País passa por uma eleição presidencial.Então, depois de sair frustrado com a falta de novidades na coletiva de Fraga, o mercado manteve o pessimismo e afirma que hoje a pressão foi até moderada, a maior do tempo, pelo comportamento mais positivo do mercado externo. Depois da volatilidade de ontem, alguns chegaram a estimar que a cotação da moeda norte-americana atingiria os R$ 4 hoje. Mas isso não ocorreu e a máxima do dólar continua sendo os R$ 3,96 registrados durante as transações do último dia 30 de setembro.Ao final da manhã, a alta foi intensificada e os analistas atribuem essa pressão momentânea ao anúncio do leilão pelo qual o BC fará a segunda tentativa de antecipar parte do vencimento do próximo dia 17. Hoje, a autoridade monetária dispôs-se a resgatar US$ 200 milhões dos US$ 3 bilhões que ainda faltam serem rolados.Quanto à corrida presidencial, apesar da expectativa com as próximas sondagens eleitorais, a avaliação é de que esses primeiros resultados ainda vão refletir os números do primeiro turno. As pesquisas mais relevantes, segundo analistas, serão as divulgadas após o início efetivo da campanha de segundo turno, cerca de uma semana após o início do horário eleitoral gratuito.MercadosÀs 15h, o dólar comercial era vendido a R$ 3,9450, em alta de 1,81% em relação às últimas operações de ontem, oscilando entre R$ 3,8900 e R$ 3,9500. Com esse resultado, o dólar acumula uma alta de 70,34% no ano e 25,76% nos últimos 30 dias.No mercado de juros, os contratos de DI futuro com vencimento em janeiro de 2003 negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros pagavam taxas de 20,970% ao ano, frente a 20,860% ao ano ontem. Já os títulos com vencimento em julho de 2003 têm taxas de 26,350% ao ano, frente a 26,050% ao ano negociados ontem.A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) operava em alta de 1,76% em 8867 pontos e volume de negócios de R$ 256 milhões. Com esse resultado, a Bolsa acumula uma baixa de 34,69% em 2002 e 10,97% nos últimos 30 dias. Das 50 ações que compõem o Ibovespa - índice que mede a valorização das ações mais negociadas na Bolsa -, cinco apresentam quedas. O principal destaque são os papéis da Ipiranga Petróleo PN (preferenciais, sem direito a voto), com valorização de 6,38%. Mercados internacionais Em Nova York, o Dow Jones - Índice que mede a variação das ações mais negociadas na Bolsa de Nova York - operava em alta de 2,74% (a 7485,8 pontos), e a Nasdaq - bolsa que negocia ações de empresas de alta tecnologia e informática em Nova York - sobe 4,01% (a 1158,75 pontos). O euro era negociado a US$ 0,9864; uma queda de 0,36%. Na Argentina, o índice Merval, da Bolsa de Valores de Buenos Aires, estava em alta de 4,31% (413,70 pontos). Não deixe de ver no link abaixo as dicas de investimento, com as recomendações das principais instituições financeiras, incluindo indicações de carteira para as suas aplicações, de acordo com o perfil do investidor e prazo da aplicação. Confira ainda a tabela resumo financeiro com os principais dados do mercado.

Agencia Estado,

10 de outubro de 2002 | 15h10

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