Gabriela Biló/ Estadão
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coluna

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'Falar em qualquer tipo de bolha é irresponsabilidade’, diretor de regulação do Banco Central

Otavio Damaso diz que taxa de juros para esse tipo de financiamento deve ser mais barata que a cobrada no consignado

Entrevista com

Otavio Damaso, diretor de regulação do Banco Centra

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 04h00

O diretor de regulação do Banco Central, Otavio Damaso, se antecipa à critica e diz que é irresponsabilidade falar em risco de bolha no crédito imobiliário no Brasil com os ajustes que a instituição está fazendo para popularizar o “home equity”, modalidade de crédito com garantia de imóvel.

Essa mudança na regulamentação não pode gerar uma bolha imobiliária, como ocorreu nos Estados Unidos com o subprime? 

Essa discussão é totalmente exagerada. É só olhar os números do mercado brasileiro. Temos hoje aqui no Brasil uma relação dívida imobiliária/PIB da ordem de 10%. Quando se olha para um país emergente parecido com o Brasil, essa relação é de 25% a 30%. Nos países avançados, a relação é de 50% e, em alguns casos, chega a 100%. O grau de alavancagem em cima do imóvel aqui no Brasil é muito baixo. Temos um espaço para crescer muito grande.

De que forma?

O nível da dívida versus o valor do imóvel no sistema financeiro brasileiro é muito baixo. O saldo está na ordem de 40% a 60%. Isso representa todos os financiamentos imobiliários versus o valor do imóvel. Se tiver que executar aquela dívida, vai vender o imóvel por R$ 100 para pagar uma dívida de R$ 40. É um nível muito baixo. 

O que significa o nível baixo?

As instituições financeiras, na hora da concessão do crédito, geralmente concedem financiamento imobiliário com folga razoável. Provavelmente, se uma pessoa pegar um financiamento imobiliário, a instituição vai dar, no máximo, 70% do valor do imóvel. Dificilmente vai financiar 100%. Se o banco tiver algum problema, tem uma folga muito grande para administrar.

Por que isso é importante? 

No Brasil, o imóvel financiado é para a casa própria. Raramente a pessoa está alavancando em cima disso. O “home equity” tem um volume muito pequeno. Fizemos um levantamento no ano passado, e estava na ordem de R$ 10 bilhões.

Esse volume inclui as operações das novas fintechs, que já estão oferecendo esse produto?

Sim, é muito baixo para um mercado de crédito da ordem R$ 3,5 trilhões e para um volume de valor de estoque de imóveis de R$ 12 trilhões. 

Esse crédito será mais barato que o consignado?

Sim. Para se ter uma ideia, ele se equipara em muitos casos ao financiamento imobiliário, que eu tenho visto entre 7% e 9% ao ano. Combina tudo isso: volume de crédito imobiliário pequeno, nível da dívida versus o valor do imóvel com folga, um estoque de imóveis quitados nas capitais e um volume irrisório de “home equity”. Falar em qualquer tipo de bolha é irresponsabilidade. Não existe isso. 

Os bancos têm interesse?

Sim. Estão se estruturando para avançar nesse tipo de crédito. 

Mesmo com a regra atual, é difícil fazer um financiamento home equity no Brasil?

O papel do BC é criar as condições para as operações serem realizadas com segurança jurídica e prudenciais. As fintechs têm atuado em mercados e segmentos antes não explorados. Isso acaba chamando a atenção dos bancos tradicionais. Na pratica, o que vimos é que essa operação de “home equity” não era uma operação popular, por alguns problemas e por uma questão cultural.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

  • Ao dar meu imóvel como garantia, poderei usar o empréstimo para qualquer coisa?

Sim. A ideia é que o recurso liberado não tenha uma destinação específica.

  • Quem poderá pegar esse empréstimo?

Qualquer pessoa que tiver um imóvel escriturado e registrado em seu  nome.

  • Poderei pegar esse empréstimo, mesmo se meu imóvel ainda não tiver sido quitado?

Não. O empréstimo só será liberado para quem já quitou o imóvel e possui seu registro em cartório, com escritura.

  • Que valor poderei pegar de empréstimo?

Vai depender da avaliação do valor do seu imóvel. Essa regra ainda será definida.

  • Qual será a taxa de juros?

A ideia é que essa taxa seja mais barata que o empréstimo consignado, aquele que é descontado na folha de pagamento do trabalhar. Essa taxa, no entanto, ainda será detalhada.

  • Poderei pegar mais de um empréstimo dando como garantia um único imóvel?

Sim. O mesmo imóvel poderá ser dado como garantia para mais de um empréstimo, como se fossem cotas desse imóvel. Essas transações estarão sob a supervisão do Banco Central, para impedir que sejam dadas muitas garantias acima do valor do imóvel.

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