Falhas na distribuição e Judiciário minam tarifaço

Incapacidade do governo de garantir energia com regularidade e reação da Justiça atrapalham meta de cortar subsídios

Rodrigo Cavelheiro / Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2016 | 05h00

Aos 4 meses de idade, Caroline já segue as orientações do presidente Mauricio Macri, que recentemente criticou os conterrâneos que usam em casa mangas curtas no inverno. Mais por necessidade que por escolha, a menina está sempre de touca de lã, meias e agasalho pesado.

A quantidade de abrigo é reforçada com gola alta quando falta luz, algo que segundo seus pais ocorre uma vez a cada duas semanas. O conserto demora em média três dias. No mês passado, duas crianças vizinhas morreram intoxicadas por monóxido de carbono, quando os pais improvisaram aquecimento com carvão num blecaute.

Às 5h30, quando a irmã dela, Yoseli, de 5 anos, acorda para ir ao último ano da pré-escola, é comum enfrentar temperaturas de 5ºC. Sem a estufa elétrica, dormir é um desafio. Ambas dividem o quarto com os pais. Caroline deixou de dormir no berço e só aceita o calor da cama de casal. “Dormimos cada um em uma ponta e ela fica com todo o meio, nem dá para descansar direito”, diz Natalia, a mãe das duas meninas.

Esses cortes de luz têm causado protestos contra Macri, atos agravados pela revolta contra reajustes nos serviços, o que o governo tenta implementar desde março. Há uma decisão judicial contrária ao aumento de gás, mesmo depois de o governo “limitá-lo” a 400% diante da objeção a contas ampliadas em mais de 10 vezes. Na semana passada, a Justiça proibiu o reajuste da energia elétrica, o que ampliou o desgaste político das revisões, que atingiram também água e transporte.

Em um apartamento de dois quartos na Recoleta, uma conta bimestral de água passou de 500 pesos (R$ 176) para 1.600 pesos (R$ 564). A de gás foi de 400 pesos (R$ 141) para 1.400 pesos (R$ 494). No bairro, dominado por eleitores de Macri, houve quinta-feira panelaço pela segunda vez em um mês. Uma antiga deficiência de abastecimento faz a Argentina pedir às indústrias que reduzam o consumo de gás e eventualmente interrompam a produção para priorizar a calefação doméstica.

Em 2015, o acúmulo de subsídios durante o kirchnerismo comprometia, segundo o Centro de Implementação de Políticas Públicas para Equidade e Crescimento (CIPPEC), 1,2% do PIB em transporte e 3,3% em energia. “O governo optou por um choque, para não prolongar o custo político. Poderia ter feito isso gradualmente. Errou também ao tocar em todos os serviços ao mesmo tempo”, avalia Guillermo Rozenwurcel, investigador do CIPPEC. “Com Cristina, criou-se uma cultura de que o governo dá a energia e isso é difícil mudar.”

No caso da família Uribe, a energia elétrica não é paga. Vem de uma ligação clandestina feita por Eder. “Até preferia ter medidor para cobrar do Estado caso algo queime, mas não tenho como pagar isso, não agora.”

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