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Falsas Termópilas

A dívida pública da Grécia é uma enormidade, de 317 bilhões de euros, três vezes maior do que a brasileira quando comparada com seu próprio PIB; Mas esse não é nem o maior problema

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2015 | 21h00

O primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, parece tomado por um complexo de Leônidas. Sente-se no desfiladeiro das Termópilas liderando um punhado de heróis prontos para enfrentar até a morte o poderoso exército persa, de mais de 1 milhão de homens.

Essas Termópilas estarão, nesta sexta-feira, em Luxemburgo, onde deverá ocorrer o encontro decisivo dos gregos com a troica credora (Fundo Monetário Internacional, União Europeia e Banco Central Europeu). Pode, enfim, sair a ruptura do impasse que dura quase cinco meses.

O governo da Grécia avisa que seu povo sofreu demais e não cederá nem um centímetro às imposições dos espoliadores. Os credores também avisam que não há espaço para mais concessões nem paciência para delongas. É aceitar o programa de austeridade e adotar um cronograma crível de reformas e, assim, garantir mais alguma ajuda, ou assumir o calote e o desastre que viria depois - advertem aos gregos.

O desastre não se limitaria ao caos econômico, político e social que estaria contratado. Implicaria a saída da Grécia da área do euro, também com seus altos custos. A adoção de uma moeda nacional - possivelmente a volta da dracma - exigiria brutal desvalorização cambial em relação ao euro. 

Propriedades e patrimônio financeiro também seriam submetidos a forte desvalorização. Para que todo o sistema bancário grego não quebre, seria preciso decretar feriado prolongado e um mecanismo que racionasse o acesso aos depósitos, como no sequestro da poupança do Plano Collor em 1990 ou no corralito instituído em 2001 na Argentina. Seria um pinga-pinga com força suficiente para desorganizar o sistema de pagamentos e aprofundar a recessão.

A dívida pública da Grécia é uma enormidade, de 317 bilhões de euros, três vezes maior do que a brasileira quando comparada com seu próprio PIB (veja o Confira). Mas esse não é nem o maior problema. A economia da Grécia está tomada por cartéis e reservas de mercado. O sistema tributário é complexo e ineficiente, do qual os ricos sempre escapam. Militares de alta patente, políticos e juízes gozam de aposentadorias privilegiadas, liberadas em prazos bem mais curtos do que as dos cidadãos comuns. O governo está obrigado a pagar salários mais altos do que os do setor privado não apenas aos funcionários públicos, mas também ao clero da Igreja Ortodoxa. E o resto é ainda pior do que no Brasil: corrupção alta e espalhada, Justiça excessivamente lenta e parcial, burocracia para tudo e uma cultura centenária de criação de dificuldades para vender facilidades.

Como há muito em jogo, em ambos os lados, a guerra de ameaças pode não antecipar o fim de tudo. Sempre há recursos para adiamento do desfecho.

Desde janeiro, o governo Tsipras imaginou que a simples iminência de saída da Grécia da área do euro (Grexit) lhe daria poder de barganha suficiente para dobrar os credores. É possível que hoje já não pense assim. 

Durante quatro meses, o comportamento da troica deu a entender que temia pela tragédia de rachadura porque esta abriria grave precedente no ainda frágil edifício do euro. Mas hoje seus líderes parecem acreditar, como Goethe, que é melhor um fim com terror do que um terror sem fim.

CONFIRA:

Aí está o tamanho da dívida dos países de finanças mais problemáticas da área do euro.

A Grécia e o Brasil

O temor de que uma eventual quebra da Grécia provoque estragos sérios na economia brasileira já foi maior. Hoje as análises sugerem que os efeitos mais preocupantes poderiam advir das reações dos grandes bancos centrais, especialmente do Federal Reserve (Estados Unidos), ao calote da Grécia. Os mais pessimistas acreditam em que, a partir daí, poderia ser deflagrada nova crise global. Mas convém não antecipar efeitos assim.

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