Falsos dilemas do crescimento

O Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer acima de 7% este ano, após um desempenho de -0,2% em 2009, com o efeito da crise internacional. O desafio será manter um crescimento continuado nos próximos anos, sem gerar pressões inflacionárias, assim como eliminar os entraves estruturais da economia brasileira para garantir, principalmente, a elevação do investimento e a sustentabilidade intertemporal das contas externas. Historicamente, esses sempre foram os principais fatores que interromperam ou limitaram o crescimento econômico.

Antônio C. de Lacerda, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2010 | 00h00

Há desafios inegáveis, mas é preciso colocar o debate no lugar correto para evitar sermos reféns de falsos dilemas. É fato que a taxa de investimentos no País, que este ano deve chegar a um nível próximo de 19% do PIB, é insuficiente, no médio e no longo prazos, para sustentar um crescimento econômico de 5% a 6% ao ano. Mas é um equívoco interpretar esse fato como se tivéssemos de interromper o crescimento da atividade, de forma a esperar que os investimentos na infraestrutura e a capacidade produtiva cresçam e, com isso, sustentem a ampliação da oferta para atender ao crescimento da demanda.

Na verdade, tanto investimento quanto consumo representam demanda efetiva. Ou seja, fazem parte do crescimento. Para a economia brasileira o importante é que o investimento cresça a taxas superiores ao crescimento médio da economia e da demanda, o que já vem ocorrendo há alguns trimestres.

Também é preciso interpretar com cuidado o fato de que a economia brasileira depende de um aumento da poupança. Essa questão, embora crucial, não pode ser vista de forma estática, mas dinâmica. Ao contrário da visão tradicional, a poupança não é um pré-requisito para o investimento e crescimento, mas parte do processo. Ou seja, desde que haja expectativa favorável de crescimento firme da demanda, disponibilidade de financiamento e crédito e um ambiente favorável de negócios, isso vai favorecer as decisões de investimento e gerar um efeito multiplicador do crescimento, algo que se retroalimenta.

Uma das alternativas para elevar o investimento está na ampliação da oferta de crédito e financiamento para empresas e consumidores. Isso ficou ainda mais claro no ano passado, com os impactos da crise internacional. O Brasil conseguiu estimular o mercado interno pela ampliação de recursos oferecidos pelos bancos públicos e pelos investimentos governamentais. Este foi um fator determinante como política anticíclica, além das demais medidas adotadas, como a redução de impostos, programas sociais, elevação do salário mínimo e de aposentadorias e pensões. Isso compensou a queda da demanda externa e estimulou o mercado interno.

A sustentabilidade da demanda e do investimento também dependerá da correção dos preços fundamentais da economia, como taxa de câmbio, juros e demais fatores de competitividade sistêmica (tributação, custo de logística, burocracia, etc.). Assim, um erro a ser evitado é elevar ou manter elevadas as taxas de juros para inibir o consumo. Mesmo porque isso teria o efeito inverso ao desejado, por desestimular os investimentos e encarecer o custo do financiamento, além de gerar incertezas quanto ao crescimento da demanda futura.

O País tem uma longa lista de tarefas à frente. Mas é preciso se livrar de falsos dilemas do crescimento e enfrentar os grandes entraves. No pós-crise vai ser crucial criar um ambiente propício para a elevação da oferta de financiamento de longo prazo via mecanismos de mercado. Isso exigirá ir além do "mais do mesmo" na política econômica. O que não necessariamente implica abrir mão do tripé superávit fiscal, metas de inflação e câmbio flutuante, mas aperfeiçoar esses instrumentos para que induzam o investimento e a demanda.

Também será imprescindível aperfeiçoar as políticas de competitividade (industrial, comercial e de inovação) para fazer frente à crescente concorrência internacional, tanto no mercado doméstico quanto no externo.

ECONOMISTA, DOUTOR PELA UNICAMP, É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-SP

E-MAIL: ACLACERDA@PUCSP.BR

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.