'Falsos positivos'

Na medicina, o resultado "falso positivo" de um exame aponta, erroneamente, a presença de uma enfermidade inexistente, enquanto a leitura "falsa negativa" indica que a afecção não existe, quando, de fato, o paciente está doente. Os termos podem ainda ser usados de forma mais livre, digamos, como fez recentemente o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, em seu pronunciamento à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado no dia 5/8. Lá, o dirigente da autoridade monetária brasileira referiu-se aos surtos de melhora da economia mundial observados nos últimos anos como episódios "falso positivos", responsáveis por uma sensação equivocada de solidez que jamais contaminou a visão do BC a respeito da recuperação global. É, pode ser.

Monica Baumgarten de Bolle, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2014 | 02h04

O "falso positivismo" de Tombini, entretanto, foi mais longe. Seguindo a linha das demais autoridades do País e, sobretudo, da presidente em campanha, Tombini asseverou que a taxa de desemprego no País está baixa e assim deve permanecer porque, nos últimos anos, os jovens puderam optar por estudar e se qualificar em vez de serem forçados a entrar na força de trabalho. Isso só foi possível, dizem os mais ferrenhos articuladores do falso positivismo, porque houve uma inédita ascensão social no País. A ascensão social é indiscutível. Já o aumento da qualificação da força de trabalho e a presumida alta da produtividade que deveria acompanhar tão auspicioso diagnóstico, deles não se tem notícia. Ou melhor, a notícia que se tem sobre a qualidade da educação dos jovens brasileiros, provenientes de exames internacionais como o Pisa, apontam o contrário. Não há margens para erro aí.

Produtividade que cresce aquém dos salários, como se sabe, pressiona os preços, gera inflação. Mas o presidente do Banco Central optou pelo diagnóstico "falso positivo" - na verdade, "falso negativo" - da inflação. Disse não haver risco de descontrole, ainda que o IPCA permaneça próximo do teto da meta com 1/4 dos preços controlados na marra. Negou a presença de uma velha doença, disse não existir estagflação no País, mesmo que as chances de atividade cada vez mais fraca com inflação resistente sejam crescentes. Se médico fosse, em vez de presidente do BC, poderia ser acusado de ter cometido um erro do segundo tipo: o de rechaçar a presença de grave enfermidade, negligenciando o paciente.

Tombini não é responsável pelos descaminhos e desmazelos do País. Ele dirige uma instituição importante, que deveria zelar pelo poder de compra dos brasileiros, mas não pode fazer todo o esforço de conter os estragos sozinho. O pronunciamento complacente ao Senado causa algum estranhamento, mas é sintomático de um governo que preferiu, nos últimos anos, ignorar os problemas da economia brasileira, ou mesmo contribuir para aumentá-los, em vez de reconhecer erros, ouvir as críticas e mudar o rumo. Agora é tarde. Agora, temos de lidar com a perspectiva de mais um ano de crescimento baixo, mais um ano de inflação alta, mais um ano de dúvidas a respeito da real solidez do mercado de trabalho, dos empregos e dos salários. Independentemente de quem ganhe as eleições de outubro, o quadro que se delineia para 2015 é ruim, as políticas que terão de ser implantadas para tratar dos problemas brasileiros hão de ser impopulares, o ambiente no País não deve melhorar tão cedo. Essa é a realidade, ainda que doa escutá-la, ainda que o governo não entenda a diferença entre pessimismo e realismo. Pessimismo é achar que vamos para o fundo do poço. Realismo é achar que vamos para o fundo do poço se nada fizermos, ignorando a desordem sob as ilusões do equivocado falso positivismo.

Voltando à medicina, suponhamos que um paciente tenha feito exame para saber se tem um câncer, potencialmente tratável. Não seria terrível se o médico cometesse o erro de dizer-lhe que nada sofre, enquanto o tumor insidioso se aproxima do limiar entre a cura e a inexorável fatalidade? Não seria terrível se o governo continuasse a nos bombardear com resultados falso negativos, revestidos de uma positividade pueril? Não seria?

* Economista, professora da PUC-Rio, é sócia-diretora da Galanto | MBB Consultoria

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