Felipe Rau/ Estadão
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Falta combinar com os russos

Não sabemos se nem quando haverá uma reação da sociedade ao desprezível crescimento da economia

Luís Eduardo Assis, O Estado de S. Paulo

16 de março de 2020 | 05h00

No sábado de carnaval, o Estado publicou a estimativa dos analistas para o desempenho da bolsa na semana seguinte. A ameaça do coronavírus não inibiu o otimismo da tigrada. Nada menos que 52,6% dos pesquisados apontaram que a bolsa deveria subir, contra apenas 15,8% que acreditavam na queda. A diferença para os 100% representa os que ficaram em cima do muro.

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Nocaute técnico

O Ibovespa acumulou uma queda de 8,4% na semana. Um banho de sangue. Na semana seguinte, os otimistas ainda eram 50%, ao passo que apenas 27,8% dos pesquisados acreditavam que a bolsa iria cair. Caiu mais 6%. Na semana passada, a chacina foi ainda maior, mas apenas 25% dos pesquisados acreditavam na queda.

Olhando para trás, os mesmos analistas hoje são capazes de explicar com grande desenvoltura as razões da hecatombe, lembrando que, afinal de contas, claro, o coronavírus é uma ameaça à sobrevivência da humanidade. Moral da história: depois do desastre, consumado o morticínio, é fácil explicar por que a bolsa tinha tudo para derreter.

Na economia pode estar acontecendo algo parecido. O crescimento do PIB em 2019 mostra que estamos rastejando. O produto do último trimestre do ano passado ficou abaixo do patamar em que estava em 2012. Os investimentos ainda eram 26% menores do que foram no final de 2013. O PIB per capita avançou 0,34% (menos ainda que em 2017 e 2018), o que fez que este indicador para 2019 ficasse 1,7% abaixo do índice de 2010. Nesse ritmo, o PIB per capita de 2013 será alcançado novamente apenas em 2042.

No mercado de trabalho ocorre algo similar. Em janeiro deste ano, havia 11,9 milhões de desocupados, 712 mil a menos que em janeiro de 2019. Está caindo, mas esse número ainda é quase o dobro dos 6,2 milhões de desocupados de janeiro de 2014. O aumento do emprego é maior no mercado informal, onde os rendimentos são mais baixos e os benefícios sociais, inexistentes. Enquanto o emprego com carteira assinada vem crescendo a uma taxa anual de 1,1%, o emprego por conta própria avança 4,1% ao ano. Em janeiro, o rendimento dos trabalhadores por conta própria foi 21% menor que o dos que têm carteira assinada. A pequena queda do desemprego em 2019 veio acompanhada de um aumento recorde da informalidade. Segundo o IBGE, o trabalho informal no ano passado foi a principal ocupação de mais de 40% da população em 21 Estados, o mais alto porcentual desde 2016.

Enquanto isso, o exército de miseráveis aumenta. Não há ainda números para 2019, mas em 2018 o mesmo IBGE contou 13,5 milhões de pessoas com rendimento inferior a US$ 1,90 por dia. Pelo mesmo critério, em 2012 o número de miseráveis era de 10 milhões.

O lamaçal em que nos metemos tem uma evidente implicação política. O economista inglês W. Jevons acreditava, no século 19, que os ciclos econômicos eram determinados pela variação das manchas solares. O mais comum, mesmo, é que os trabalhadores atribuam suas vicissitudes não ao alinhamento dos planetas, mas ao governo de plantão. O governo está aí para levar a culpa. Neste prisma, é de esperar que na ausência de uma aceleração do crescimento comecem a surgir aqui e ali sinais de descontentamento. Por ora, o horizonte está limpo e não há sinal de impaciência que prenuncie tensão social. Mas os ingredientes estão colocados.

Não consta que o governo tenha combinado com os trabalhadores que eles esperariam o tempo necessário para que as reformas surtam o efeito desejado. Como acontece com a debacle do mercado financeiro, não sabemos se nem quando haverá uma reação da sociedade ao desprezível crescimento da economia. A única coisa que sabemos é que, se acontecer, será muito fácil explicar as razões.

ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM 

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