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Falta consenso sobre a recuperação da indústria brasileira

Para Skaf, medidas eficientes podem recolocar o setor em pé de igualdade com concorrentes; já economista do Iedi diz que reversão do cenário é improvável no curto prazo

Anne Warth e Francisco Carlos de Assis, da Agência Estado,

31 de março de 2012 | 12h55

A depender da profundidade e abrangência das medidas de apoio ao setor industrial que a presidente Dilma Rousseff vai anunciar na terça-feira, dia 3, a indústria dará show não só para o Brasil, mas para o mundo, já a partir do ano que vem, disse à Agência Estado o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf.

Basta para isso o governo promover uma ruptura do costumeiro "mais do mesmo" (desonerações pontuais e setoriais e temporárias) e anunciar medidas que realmente recoloquem a indústria nacional em pé de igualdade de competição com os concorrentes internacionais. Esperançoso, Skaf acredita que a equipe econômica vai, com o anúncio do pacote de medidas na semana que vem, promover mudanças estruturais e de forma linear para todas as empresas da indústria da transformação. "Se forem medidas eficazes, as respostas serão muito rápidas. Baixem o preço do gás, da energia, os encargos na folha de pagamento, corrijam a questão cambial, reduzam os juros e, ano que vem, veremos a indústria brasileira dando show no mundo", afirma o presidente da Fiesp.

Já para o ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Julio Gomes de Almeida, a reversão do cenário de desindustrialização brasileiro é improvável no curto prazo. Para Almeida, isso somente poderia ocorrer após 2014, em um outro contexto mundial. "Nossa política industrial pode apenas minimizar o contexto internacional de crise e de intervenção no câmbio por parte da China", afirmou. "Uma reversão de peso viria mais pela exportação, com uma política de governo mais agressiva, o que hoje é impensável com o câmbio nesse patamar."

Ainda assim, falando particularmente da atual política industrial Plano Brasil Maior, Almeida reconhece que tem pontos positivos, entre eles a desoneração total do investimento, ao menos no nível federal. "O governo deu isonomia ao produto brasileiro em relação ao importado", afirmou. Ainda falta, porém, desonerar as exportações do ICMS, imposto que é cobrado pelos Estados. "E não é pouca coisa", disse Almeida. O reforço do papel da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) no apoio à inovação também deve se traduzir em um poder de financiamento maior ao órgão. "Se isso der certo, será revolucionário, pois a Finep poderá financiar a empresa inovadora, e não apenas o projeto inovador", afirmou.

No entanto, ainda que as medidas adotadas pelo governo sejam bem-sucedidas, a indústria deve continuar a apresentar um desempenho modesto. Isso porque os efeitos das medidas adotadas desde o ano passado só devem ter impacto em 2014. "Leva um certo tempo para que as providências tomadas maturem. E, além disso, a política industrial foi atropelada por um processo de concorrência internacional muito forte", disse.

O dado mais recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que praticamente um em cada cinco produtos industriais vendidos no Brasil em 2011 foi fabricado em outro país. O porcentual de produtos importados alcançou o nível recorde de 19,8% no ano passado, ante 17,8% em 2010. Para se ter uma ideia, em 2005, esse índice era de 16,3%. Para o economista, até 2014, esse coeficiente deve chegar a algo entre 25% e 30%.

"A crise de 2008 fez com que nossos problemas de competitividade, como custo e produtividade, que já existiam, ficassem inteiramente à mostra", afirmou. Com a falta de dinamismo dos mercados de países desenvolvidos, o Brasil se tornou um país ainda mais atrativo. "O Brasil já era assim antes, mas o mundo tinha um dinamismo melhor."

Da mesma forma, as exportações brasileiras perderam competitividade. O coeficiente de exportações da indústria de transformação encerrou o ano de 2011 em 15% - em 2004, o índice atingiu 21,6%. Para Almeida, se o País conseguir manter esse nível até 2014, já será um grande feito. "Todas essas medidas adotadas servirão para que a indústria continue a existir. Mas não voltaremos aos mesmos níveis de exportação e participação no PIB do passado, nem vamos melhorar muito de patamar", afirmou.

O economista do Iedi reconheceu que o processo de desenvolvimento econômico faz com que os países passem a importar mais. Ele ponderou, porém, que as vendas externas também costumam aumentar, pois os países usam as importações para exportar mais. "O problema não é importar, mas baixar a exportação. Estamos seguindo um modelo contrário dos melhores modelos de desenvolvimento."  

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