Falta de apoio na sociedade ameaça Duhalde

O presidente Eduardo Duhalde é o político argentino que alcança o poder com mais apoio político nas últimas décadas, mas com menos apoio econômico e social. Ele chegou à Casa Rosada, sede do Executivo argentino, com os votos de 80% do Congresso - do Partido Justicialista, da União Cívica Radical e da Frepaso (os dois últimos integram a Aliança que levou o ex-presidente Fernando de la Rúa ao poder) e de parte dos partidos provinciais. Mas sem respaldo da sociedade. Segundo pesquisas de opinião, Duhalde só tem 20% de imagem positiva entre os argentinos. E não tem sustentação no campo econômico."Vivemos um divórcio entre o setor político e o econômico e social. E, enquanto o poder político não conseguir uma correlação com a área social e a econômica, a situação na Argentina continuará sendo muito frágil", afirma o analista político Rosendo Fraga, presidente do Instituto para a Nova Maioria, uma respeitada instituição de pesquisa de opinião e estudos sociais da Argentina. Para ele, o panelaço da madrugada de hoje mostra a falta de apoio social. E o dólar livre a 1,70 peso demonstra a falta de apoio econômico.Segundo Fraga, a situação herdada e "agravada" por Duhalde é social e inevitavelmente explosiva. "Vai haver explosões de violência social maiores das que aconteceram nos últimos tempos. Falta muito pouco para que isso aconteça. E deverão ser convocadas eleições antecipadas, para março ou abril", afirmou.Para o analista, os principais candidatos nessa eleição antecipada serão José Manuel de la Sota (governador da província de Córdoba e ex-embaixador no Brasil) e Elisa Carrió (deputada que rompeu com a Aliança e fundou o partido ARI) porque "os dois se opuseram a 80% da classe política e disseram que o caminho era eleições, e não a determinação do presidente pelo Congresso". E acrescentou: "Ganha De la Sota".A base de sustentação política já começou a rachar. Os governadores impuseram um obstáculo quando disseram não à reforma da Constituição que Duhalde quer promover. O presidente lançou a proposta de uma reforma política que, por meio de uma Assembléia Constituinte (que seria eleita), diminuísse o número de deputados (dos atuais 257 para 152) , senadores (de 72 para 48) e juízes do Supremo Tribunal argentino (de 9 para 5), além de cortar 50% dos cargos políticos da administração pública. "O argumento para que o Congresso elegesse Duhalde indiretamente foi que não era possível fazer uma eleição na Argentina diante daquela situação crítica. E agora ele quer uma eleição para reformar a Constituição. Isso não faz sentido", disse Fraga, que acredita que o anúncio foi feito por uma questão publicitária, porque o corte de despesas no Legislativo poderia ser feito pelo próprio Duhalde, se quisesse, diminuindo a receita no projeto de lei do Orçamento nacional. "Duhalde pode fazer isso agora mesmo. O problema é que, se fizer, perde o apoio político. Não vai fazer porque ele é o melhor exemplo da corporação política eleitoral da Argentina", afirma o analista político.Alguns governadores já começaram a se afastar de Duhalde. O governador Nestor Kirschner, de Santa Cruz, no sul da Argentina, disse hoje que "as pessoas foram saqueadas de suas economias". E pediu a Duhalde que, "em vez governar para salvar dirigentes políticos, faça um governo de resposta nacional".Até membros do gabinete de Duhalde deixam transparecer nervosismo com a situação. O secretário-geral da presidência, Aníbal Fernádez, reconheceu que as pessoas "estão cheias" da atual crise, e que o clima social e político está "muito grave e denso".Para Rosendo Fraga, o pior está por vir. Ele acredita que os panelaços estão hiperdimensionados. "Aqui quem mais está sofrendo não é a classe média, mas sim os setores que historicamente estiveram mais próximos de Duhalde, que são os populares. A classe média não pode usar seus depósitos. Os setores populares ficaram sem dinheiro vivo, que é a única coisa que têm", disse. "Sem dinheiro, sem trabalho e com inflação, a pior fórmula."Leia o especial

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