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E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Falta de credibilidade piora situação da Boi Gordo

Ainda são desconhecidos os detalhes do pedido de concordata preventiva solicitado pela empresa Fazendas Reunidas Boi Gordo, mas a perda da credibilidade junto aos investidores já é dada como certa. De acordo com o advogado Nelson Miyahara, que já foi procurado por muitas pessoas que têm Contrato de Investimento Coletivo (CIC) firmado com a Boi Gordo, ninguém em "sã consciência vai renovar um título com uma empresa que está em processo de concordata". Segundo o advogado, os investidores que procuraram o seu escritório estão preocupados com o recebimento do valor aplicado e com os rendimentos.A Fazenda Reunidas Boi Gordo está em sua quarta emissão de títulos e, há algum tempo, vinha apresentando problemas financeiros (veja mais informações no link abaixo). Em março, quando começaram a vencer os títulos referentes à primeira emissão, a Boi Gordo teve que pagar em dinheiro os resgates, pois a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ainda não tinha aprovado os novos CICs referentes à quarta emissão.Demora da CVM não é justificativa plausívelA empresa alega que a demora da CVM na aprovação da reserva de subscrição de ações é um dos motivos para a sua atual dificuldade financeira, que motivou o pedido de concordata preventiva. Mas, de acordo com o advogado Miyahara, isso não é uma justificativa lógica. "Se nada atípico aconteceu, ou seja, se o gado que deveria ter sido comprado está seguro no pasto engordando, a Boi Gordo não teria razões para pedir concordata. Inicialmente, tudo indica que o problema da empresa é de má administração", afirma.Esta também é a opinião de um analista de investimentos, gestor de fundo de commodities agrícolas, ouvido pela Agência Estado. A questão é que a Boi Gordo pega dinheiro do investidor, compra animais e promove a engorda. Quando o contrato vence, a empresa já deve ter vendido o animal para garantir a devolução do dinheiro ao investidor.Ou seja: não é correto que a empresa condicione a devolução do dinheiro para um investidor antigo apenas se um novo investidor comprar seus títulos. A operação deve terminar com a venda do boi, e não com a emissão de novos títulos. O investimento em boi gordo não deve depender de expectativas. Depende apenas de comprar o animal, engordá-lo e vendê-lo a preço de mercado.Concordata depende do valor dos ativosComo o juiz da Comarca de Comodoro, no Mato Grosso, que recebeu o pedido de falência preventiva, aceitou a solicitação da empresa, a Boi Gordo deve estar em condições de cumprir algumas exigências legais. O advogado Marcos Fuchs explica que, entre elas, a empresa precisa provar que tem ativos (receitas e direitos) maiores que o passivo (despesas e obrigações). "Nesta apresentação, a empresa terá que informar detalhadamente seus ativos e, por exemplo, mostrar que eles não estão hipotecados", diz Fuchs.Para Miyahara, o juiz só deve aceitar o pedido de concordata se o ativo da empresa de fato for suficiente para arcar com o passivo apresentado no balanço. Caso contrário, segundo o advogado, o melhor seria o juiz decretar a falência direto, já que no período da concordata o equilíbrio financeiro da empresa tanto pode melhorar como pode ficar ainda mais complicado. Credibilidade zeroMiyahara não está confiante em uma recuperação da empresa no período da concordata, justamente porque a credibilidade junto aos investidores foi abalada. "A situação da Boi Gordo é mais complicada do que a de uma empresa comercial que entra em concordata. Ela depende da credibilidade para garantir a entrada de recursos, pois vende contratos futuros" afirma o advogado. Ele explica que a situação de concordata de uma empresa como a Boi Gordo é muito diferente de uma empresa comercial, por exemplo, que vende eletrodomésticos, um bem real, e aumenta a entrada de dinheiro no seu caixa. No caso da Boi Gordo, a credibilidade da empresa sai prejudicada com a concordata, segundo ele, e isso dificulta a entrada de recursos - fator essencial para a recuperação da empresa.O advogado Antonio Affonso Mac Dowell Leite de Castro, do escritório Castro, Barros, Sobral, Vidigal e Gomes, afirma que legalmente não há nenhum impedimento para que uma empresa em concordata obtenha crédito junto a instituições financeiras, como forma de aumentar a entrada de recursos. "Mas, do ponto de vista prático, será muito improvável que um banco esteja disposto a conceder créditos para uma empresa nesta situação", afirma.InvestidoresAté o fechamento desta reportagem, a empresa não se manifestou sobre como ficará a situação do investidor (veja mais informações no link abaixo). O que já é certo é que a empresa terá que notificar a essas pessoas como pretende honrar os resgates dos papéis. Veja na matéria seguinte o que dizem os advogados sobre esta questão.

Agencia Estado,

17 de outubro de 2001 | 15h27

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