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Falta de educação

A educação no Brasil não precisa de polêmicas e muito menos de piadas

Ana Carla Abrão, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2019 | 04h00

A Constituição Federal, em seu artigo 205, diz que “educação é um direito de todos e dever do Estado e da família”. Além disso, continua o mesmo artigo, “a educação será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Ou seja, a educação assenta as bases para o desenvolvimento humano. Ao garanti-la a todos os brasileiros, estamos também contratando a construção de um País onde a cidadania se fortalece, as pessoas se desenvolvem e a mobilidade social se torna uma realidade. É, portanto, a partir da educação, que uma sociedade mais desenvolvida e, acima de tudo mais justa, se forma.

Educação começa sim no berço, mas se amplia na escola e se consolida nas experiências de vida e no exercício da cidadania. É a educação que molda cidadãos mais aptos a enfrentarem desafios profissionais e pessoais. É a educação que inspira e que também produz líderes inspiradores. É por meio da educação que valores como os da responsabilidade, do esforço e do comprometimento encontram ferramentas que geram produtividade e retorno, traduzidos em salários maiores, mas também em melhor distribuição de renda e mais crescimento para os países.

O Brasil de hoje se ressente da falta de prioridade na educação. Produtividade baixa, concentração de renda, desalento e pouca qualificação da mão de obra são a outra face de uma educação de baixa qualidade. Esse retrato aparece nos novos dados divulgados pelo IBGE, coletados por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - Pnad Continua, e no Anuário Brasileiro da Educação Básica, cuja edição de 2019 acaba de ser divulgado pelo Todos pela Educação. Os números mostram que houve avanços. Mas mostram também que ainda estamos muito atrás do que seria aceitável.

A escolaridade no Brasil aumentou entre 2016 e 2018. O número médio de anos de estudo passou de 8,6 para 9,3 anos. Mas as diferenças raciais continuam grandes. Enquanto as pessoas de cor branca atingiram 10,3 anos de estudo em média, esse número é de 8,4 anos para as pessoas de cor preta ou parda. Diferenças regionais também persistem, com as Regiões Nordeste e Norte mantendo taxas de analfabetismo superiores às observadas nos Estados do Centro-Oeste, Sul e Sudeste.

Na educação básica, estamos falando de quase 50 milhões de crianças e jovens que hoje se distribuem entre as redes pública e privada de ensino. O Anuário do Todos nos dá a dimensão de quão perversa é a atual situação. Nos níveis sócio econômicos (NSE) mais baixos, que vão do baixo até o médio-alto, essas crianças e jovens estão, majoritariamente, na rede pública. E mesmo nela há discrepâncias de qualidade que, mais uma vez, penalizam aqueles que mais precisam da educação como ferramenta de mobilidade social. Nos grupos mais baixos de renda, a aprendizagem é muito menor. Menos de 4% das crianças dos NSE baixo, baixo-médio e médio atingem nível adequado de aprendizagem em matemática ao concluírem o 3.º ano do ensino fundamental. Esse número atinge 63,7% no NSE muito alto. As diferenças entre a aprendizagem nos extremos de renda não são menores no aprendizado de português nem tampouco para as outras etapas da educação básica, reforçando o abismo social que vivemos hoje.

Mas mesmo com essa triste situação, não vemos a educação adquirir a prioridade necessária para mudar um quadro que tem relegado gerações de brasileiras e brasileiros a um futuro de pobreza e sem oportunidades. No Ministério da Educação, órgão que centraliza as políticas que deveriam assentar as bases e definir e avaliar os projetos que poderiam mudar o nosso futuro, o que se vê é excentricidade e falta de foco. 

A educação no Brasil não precisa de polêmicas e muito menos de piadas. Ela precisa de ações concretas. Fazer contas a partir de uma pilha de chocolates para justificar ações que deveriam ser explicadas de forma séria e técnica, girar um guarda-chuva ao som de Singing in the Rain ou usar as redes sociais para fazer graça sobre um fato gravíssimo não ajuda resolver o que só a educação resolve – e a falta dela agrava.

Há que se entender que a grandeza de um cargo público, qualquer que seja ele, mas em particular na educação, exige agir com seriedade e com respeito. Isso significa colocar a ética, o decoro e as responsabilidades à frente de impulsos pessoais. Gestão pública é exemplo, é liturgia e é liderança. Boa gestão pública é foco em resultado.

Não será com falta de educação que conseguiremos garantir à grande maioria da população brasileira o direito que a Constituição lhes assegura para que possam construir as bases do seu próprio futuro e do futuro da nossa nação.

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN

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