Gilles Sabrié/The New York Times
Gilles Sabrié/The New York Times

Falta de energia atinge China, ameaçando economia e temporada de compras de Natal

A alta demanda e os aumentos de preço da energia forçaram o fechamento de algumas fábricas, adicionando mais problemas para as já confusas cadeias de abastecimento globais

Keith Bradsher, The New York Times

29 de setembro de 2021 | 15h00

DONGGUAN, China - Cortes de energia e até mesmo blecautes têm diminuído a velocidade ou fechado fábricas por toda a China nos últimos dias, trazendo uma nova ameaça à desaceleração da economia do país e possivelmente atingindo ainda mais as cadeias de suprimentos globais antes da movimentada temporada de compras de Natal no ocidente.

Os apagões afetaram a maior parte do leste da China, onde grande parte da população vive e trabalha. Alguns administradores de edifícios desativaram os elevadores. Estações de bombeamento municipais foram desligadas, o que levou uma cidade a encorajar os residentes a armazenar água extra pelos próximos meses, embora mais tarde tenha voltado atrás no conselho.

Há várias razões para o repentino baixo fornecimento de eletricidade em grande parte da China. Mais regiões do mundo estão reabrindo após os lockdowns provocados pela pandemia, aumentando consideravelmente a demanda de energia pelas fábricas chinesas famintas por exportações.

A demanda de exportação do alumínio, um dos produtos que mais consomem energia, tem sido forte. Assim como tem sido robusta a de aço e cimento, fundamentais para os gigantescos programas de construção da China.

Conforme a demanda por eletricidade cresceu, isso elevou o preço do carvão para gerar energia. Mas os reguladores chineses não permitiram que as concessionárias aumentassem as tarifas o suficiente para cobrir o custo cada vez mais alto do carvão. Por isso, as concessionárias têm diminuído a velocidade de operação de suas usinas elétricas durante mais horas.

Na cidade de Dongguan, um importante centro industrial próximo a Hong Kong, uma fábrica de calçados que emprega 300 trabalhadores alugou um gerador na semana passada por US$ 10 mil por mês para garantir que o trabalho pudesse continuar. Entre os custos de aluguel e o óleo diesel para abastecer o gerador, a eletricidade atualmente é duas vezes mais cara do que quando a fábrica simplesmente usava a rede elétrica.

“Este é o pior ano desde que inauguramos a fábrica, há aproximadamente 20 anos”, disse Jack Tang, gerente-geral da empresa.

Os economistas calculam que as interrupções na produção das fábricas chinesas dificultariam o reabastecimento das prateleiras vazias de muitas lojas no ocidente e poderiam contribuir para a inflação nos próximos meses.

Três empresas taiwanesas de eletrônicos de capital aberto, entre elas duas fornecedoras da Apple e uma da Tesla, divulgaram comunicados na noite de domingo, 26, avisando que suas fábricas estavam entre as afetadas. Apple e Tesla não se pronunciaram.

Não está claro quanto tempo durará a crise de energia. Especialistas na China previram que as autoridades compensariam, desviando a eletricidade de indústrias com alto uso de energia, como aço, cimento e alumínio, e disseram que isso talvez resolva o problema.

A Companhia Nacional da Rede Elétrica da China, distribuidora de energia administrada pelo governo, disse em um comunicado na segunda-feira, 27, que garantiria o abastecimento “e decididamente manteria o essencial para o sustento, desenvolvimento e a segurança das pessoas”.

Ainda assim, a escassez de energia em todo o país levou os economistas a reduzirem suas estimativas para o crescimento da China neste ano. A Nomura, instituição financeira japonesa, diminuiu sua projeção de expansão econômica no último trimestre deste ano de 4,4% para 3%.

A escassez de eletricidade está começando a piorar os problemas da cadeia de suprimentos. O recomeço repentino da economia mundial levou à falta de componentes importantes como chips de computador e ajudou a provocar uma confusão nas transportadoras de mercadorias do mundo, colocando nos lugares errados um número excessivo de contêineres e os navios que os transportam.

As fontes de energia são um pouco diferentes. Em comparação com o ano passado, a demanda por eletricidade na China está crescendo este ano a quase o dobro de seu ritmo anual habitual. O aumento das encomendas de smartphones, eletrodomésticos, equipamentos de ginástica e outros produtos fabricados em série pelas fábricas da China motivaram o aumento.

Os problemas de energia da China estão contribuindo em parte para os preços mais altos em outros lugares, inclusive na Europa. Os especialistas disseram que um aumento nos preços na China tinha levado as distribuidoras de energia a enviar navios carregados com gás natural liquefeito para os portos chineses, deixando os demais correndo atrás de mais fontes. Mas a maior parte dos problemas de energia da China é exclusiva do país.

Dois terços da eletricidade da China vêm da queima de carvão, que Pequim está tentando reduzir para combater as mudanças climáticas. Os preços do carvão aumentaram junto com a demanda. Mas, como o governo mantém os preços da eletricidade baixos, principalmente em áreas residenciais, o uso por casas e empresas aumentou de qualquer maneira.

Diante da perda de mais dinheiro a cada tonelada adicional de carvão que queimam, algumas usinas de energia foram fechadas para manutenção nas últimas semanas, dizendo que isso era necessário por razões de segurança. Muitas outras usinas têm operado abaixo de sua capacidade total e têm se preocupado com o aumento de geração de energia, quando isso significaria perder mais dinheiro, disse Lin Boqiang, reitor do Instituto Chinês para Estudos de Política Energética da Universidade Xiamen.

No fim de agosto, a principal agência de planejamento econômico da China, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, ordenou que 20 grandes cidades e províncias reduzissem o consumo de energia pelo resto do ano. Os reguladores mencionaram a necessidade de garantir que as cidades e províncias cumpram as metas anuais estabelecidas por Pequim para as emissões de dióxido de carbono pela queima de combustíveis fósseis.

Além do carvão, hidrelétricas fornecem grande parte do restante da energia da China, enquanto turbinas eólicas, painéis solares e usinas nucleares desempenham um papel cada vez maior.

A dificuldade da China em manter as luzes acesas e as torneiras funcionando apresenta um desafio para Xi Jinping, o principal líder do país, e para o Partido Comunista da China. Eles assumiram uma postura triunfalista este ano, enfatizando o sucesso da China em eliminar rapidamente os surtos de coronavírus e em conseguir a libertação de um executivo sênior da Huawei, Meng Wanzhou, em uma disputa com os Estados Unidos e o Canadá.

Mas Xi corre o risco de ser marcado tanto por problemas quanto por vitórias. Ele agiu fortemente para reprimir qualquer oposição dentro do Partido Comunista e estendeu o alcance do partido a mais setores da vida chinesa. Se as pessoas na China começarem a apontar o dedo, haverá poucos para culpar.

A recuperação econômica da China na pandemia foi impulsionada em grande parte por pesados investimentos em infraestrutura, assim como pelo aumento nas exportações. O uso total da energia para fins industriais consome 70% da eletricidade na China, liderado pelos produtores, em sua maioria estatais, de aço, cimento e alumínio.

“Se esses caras produzirem mais, isso terá um impacto enorme na demanda por eletricidade”, disse o reitor Lin Boqiang, acrescentando que aqueles encarregados de tomar conta da economia chinesa ordenariam essas três indústrias a controlarem seu consumo. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA 

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